Artigos

Falemos de livros

Geógrafo, professor da Universidade Federal do Amazonas
Quando este artigo for publicado, já estará decidida a continuidade ou não do processo de impeachment da Presidenta da República. Vamos falar de outra coisa.

Há algumas semanas foi lançado em Manaus o livro “Ethos e figurações na hinterlândia amazônica”, originalmente tese de doutorado defendida na Unicamp por Gláucio Campos Gomes de Matos, professor da Universidade Federal do Amazonas, que fez acréscimos à tese, aprofundou temas e inseriu diálogos com outros autores. Não se trata de um texto simples, mas que a complexidade e a profundidade que encerra não impossibilitam que se faça leitura fluida.

O livro trata do etnoconhecimento, das práticas na agricultura, na caça, na pesca, mas também dos grupos sociais, das pessoas, de suas histórias, dos seus cantos, contos e encantos e, se tudo isso não bastasse, parte de um lugar específico, três comunidades do interior da Amazônia, Bicó, Cuiamucu e Canela-Fina, nomes fictícios que possuem simbolismo que entrelaça o cotidiano dos habitantes. São lugares específicos, mas que ao mesmo tempo podem estar em vários lugares da Amazônia ou em nenhum lugar, pois que estão articulados concretamente ao local e abstratamente ao global.

Os lugares e os sujeitos tratados no livro até recentemente eram pouco falados, mas nos últimos anos graças aos trabalhos produzidos por pesquisadores das diversas universidades amazônicas, põem esses lugares à tona e os tornam visíveis. Esses lugares e sujeitos sociais são importantes para compreender a Amazônia, não só do ponto vista econômico e político, mas por serem lugares em que pulsam modos de vida que diferem significativamente do padrão característicos de outras regiões do Brasil e porque, como demonstra o autor, é possível a partir deles compreender a Amazônia e apresentar pistas do que fomos, somos e pretendemos ser.

O livro tem base teórica consistente, mas o que impressiona é o trabalho de campo que o sustenta, com escritos bem elaborados e com riqueza de detalhes da prática do puxirum, da criação de animais, do cultivo da terra, da pesca, da caça e da prática do futebol. São relatos que entrelaçam conhecimento acumulado e mostram como na Amazônia profunda as populações locais, embora arrancadas de seu meio, e separadas de sua cultura e de seu modo de vida, conseguiram reconstruir suas vidas a partir de novas dimensões e possibilidades. Com isso se produz outras interpretações sobre a Amazônia como conjunto de lugares com vários caminhos para o mundo. Lugares onde a natureza dos processos externos aparece como inovadora. São lugares específicos, mas nunca únicos, pois se articulam ao mundo e com isso apontam o entendimento da existência e da condição humana.

O livro não faz concessões, mostra a vida como ela é, na caça, na pesca, na plantação, na criação e no lazer, não mostrando apenas homens e mulheres como “pobres coitados”, mas como sujeitos sociais com defeitos e virtudes. Compreender isso é reinventar a Amazônia e entendê-la como área sociocultural. Neste sentido, os pesquisadores do lugar que se capacitam, como é o caso do professor Gláucio, levam vantagem, pois são capazes de vivenciar o processo de transformação por que passa a Amazônia e apresentar a visão precisa da realidade de lugares e de sujeitos sociais.

Nestes tempos sombrios, recomendo “Ethos e figurações na hinterlândia amazônica”, um livro que nos repõe a utopia.

Comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Subir