Eleições 2016

‘Eu mantenho minha altivez de Ajuricaba’, diz Arthur Neto

Arthur Virgílio, que sempre teve a tribuna no sangue, diz que agora gosta mesmo é do Executivo : foto - Marcio Melo

Arthur Virgílio, que sempre teve a tribuna no sangue, diz que agora gosta mesmo é do Executivo : foto – Marcio Melo

Aos 70 anos e com muito chão corrido, o prefeito Arthur Virgílio (PSDB) volta a ser submetido ao desafio das urnas, nas eleições de outubro. Dessa vez, caminha sem os antigos aliados que ajudou a eleger em 2014. A separação dolorosa veio após um racha, entre acusações de conspirações e traições. Agora, leva como novo companheiro de caminhada um político novo, o deputado Marcos Rotta (PMDB), candidato a vice, que sempre lhe fez oposição.

“Eu estava sendo traído, traído de forma vil. E eu não tenho vocação para isso”, disse, durante entrevista ao diretor de redação do EM TEMPO.  No corre-corre da campanha, o prefeito é questionado sobre o que é mais importante no atual estágio de sua vida: o vigor físico dos 40 ou a sabedoria dos 70. Ele responde que a sabedoria dos 70. Mas desafia quem, com 40 anos, sobe escadas correndo como ele faz aos 70. De quebra, diz que tem uma vida de esportista e uma cabeça que lhe dá um coração de leão para resolver os momentos decisivos. E não falha. Eu não sou de perder pênalti.

EM TEMPO – Qual a Manaus que o senhor encontrou e que cidade o senhor está colocando hoje, três anos e meio depois de sua segunda gestão na Prefeitura de Manaus?

Arthur Virgílio – Eu não desconheço realizações boas de outros prefeitos. Entendo que o objetivo é você fazer sempre um trabalho que melhore a cidade e a aperfeiçoe. Eu já havia inovado como prefeito, lá atrás, na forma de fazer asfalto verdadeiro, com drenagem, meio-fio, com calçada, com sarjeta. É isso que segura o asfalto. E por outro lado, uma penca de prefeitos passou por aí e fez coisas muito boas. Se pudesse lembrar, citaria o Amazonino, nem como prefeito, mas como o governo que fez a UEA, uma obra inesquecível. Assim como foi o trabalho do meu pai para se ter a Ufam. Lembro do prefeito Serafim (Corrêa), quando fez a escola André Vidal, que me emocionou quando eu fui lá com ele, uma vez. Eu não desconheço que Manaus é uma civilização que foi construída a muitas mãos e a muitos cérebros. Mas tenho a certeza que essa cidade, ao fim desses 3 anos e poucos meses de governo, ela está melhor do que estava antes. Ainda falta muito o que fazer. É preciso ter humildade para reconhecer. E eu tenho muita humildade. Mas falta também nós esclarecermos que, em primeiro lugar, os problemas acumulados não se resolvem em quatro anos. Segundo: nós tivemos um 2013, mesmo sem ajuda federal, muito bom, um 2014 também muito bom e em 2015 tivemos que fazer uma travessia num lago em tormenta, timoneiro experiente, usando da criatividade e fazendo obras com medidas compensatórias de empresas.

EM TEMPO – Como administrar a cidade sem dinheiro?

Arthur Virgílio – Pagando obras que não custavam nada do Tesouro Nacional. A empresa recebia um determinado benefício e pagava em obras. Isso é uma coisa boa. No país das propinas, isso é uma coisa boa.  Para mim, a medida compensatória vai para obra, para o trabalho. Estão aí a nova Eduardo Ribeiro, o Parque da Juventude, as academias ao ar livre, enfim… Recurso da prefeitura? Minguado, mas o que tinha, cortando ao máximo o custeio e trabalhando sozinho, nós fizemos muita obra de infraestrutura, muita coisa importante. Exemplo de duas obras grandes sem 1 real de governo federal, de governo do Estado, de nada. O Complexo 28 de Março, que não tem nenhuma outra obra parecida. A meu ver, modéstia à parte, não existe nada parecido. Não é viaduto porque é mais que viaduto. Não é passagem de nível porque é mais que passagem de nível. Realmente, é uma intervenção viária para sanear o trânsito e saneou na área onde foi construído. Também temos outros exemplos de grandes obras sem um centavo de real dos cofres públicos. Como o Shopping Popular T4. Poderíamos citar outra obra popular, mas estamos falando de uma grandiosa, a maior em curso no Norte do país, feita com recurso exclusivamente da poupança do manauara. Então, a gente usou a criatividade, a experiência – sem a qual a criatividade não vai para lugar nenhum. A experiência acumulada há muito tempo por quem foi ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, que ajudou o Fernando Henrique Cardoso a governar; que como líder de governo, ajudou o presidente a governar. Alguém que, por 3 anos, dirigiu seu partido nacionalmente. E este foi o ano, 1996, em que o PSDB mais ganhou prefeitura, quando eu estava à testa do partido.

EM TEMPO – Prefeito, o senhor deixa muitas obras importantes ainda no tapume, como o largo da Matriz, o Relógio Municipal, praça Adalberto Vale e, com certeza, vai ser cobrado durante a campanha. Como reagir a essas cobranças?

Arthur Virgílio – Aí eu dou o endereço da “doutora” Dilma, que simplesmente não me mandou o dinheiro. “Doutora Dilma, por favor, responda aqui ao candidato fulano”. E digo, com muita tranquilidade, que acertei com o presidente Temer o seguinte: eu faço com o dinheiro de medidas compensatórias. O Implurb (Instituto Municipal de Planejamento Urbano) já tem o dinheiro e nós já estamos fazendo a Matriz, o Relógio, a praça Adalberto Vale, o Pavilhão Universal e a praça Terreiro Aranha, sem gastar um centavo de real da prefeitura. Mesmo assim com uma cláusula de ressarcimento à Prefeitura de Manaus, ano que vem, por parte do governo federal. Então, agora sai!

EM TEMPO – O senhor acredita que, a partir de agora, com o presidente interino Michel Temer, muda o tratamento do governo federal em relação a Manaus, sobre a liberação de recursos?

Arthur Virgílio – Não tenho dúvidas. O empréstimo que obtivemos para Manaus – com a ajuda de muitas pessoas e a participação decisiva do presidente Temer – não teria saído se fosse outro governo. Um documento que poderia ser liberado em duas horas, que o presidente Temer liberaria em duas horas, demoraria 20 dias para sair. Eu sei o que estavam planejando. Eles pensam em eleição demais. Tanto pensaram que caíram.

EM TEMPO – A sua aproximação com o senador Eduardo Braga do PMDB obedece a uma articulação nacional ou a uma estratégia político-eleitoreira regional? Tem a ver, também, com a orientação do presidente Temer?

Arthur Virgílio – Não. Foi uma decisão puramente regional. Temer é um grande amigo meu, é um grande amigo do Eduardo e também é amigo de adversários nossos, aqui. Então, ele vai governar com equilíbrio. Não tem cabimento ele se meter em eleição. Até me admiro que políticos daqui cheguem lá para falar de eleição e ele dizendo que não vai se meter em eleição. Eu fui lá para tratar de saúde, dizendo que eu quero abrir essas unidades que o governador Melo está em vias de fechar. E eu não quero que isso feche. Agora, quero sim, acordo com o governo federal. Com governo estadual não, mas com o governo federal, sim, para ele dizer qual a parte que ele vai custear, para que eu possa fazer a reserva da parte que caberá à prefeitura. Mas não quero uma unidade dessas fechadas em 2017.

EM TEMPO – Como responder à crítica de seus adversários de que está se aliando a um senador (Eduardo Braga) que foi o responsável por “tomar” –  como o senhor diz no processo que moveu para resgatar o mandato –  uma eleição sua para o Senado, há  6 anos?

Arthur Virgílio – Primeiro eu estava sendo traído, traído de forma vil. E eu não tenho vocação para isso. Segundo…

EM TEMPO (interrompendo) – De que forma o senhor estava sendo traído?

Arthur Virgílio – Eu tinha um companheiro que eu julgava ser o grande articulador da minha candidatura, mas que de dia escolhia o vice de um, alimentava outro, se encontrava de noite com não sei mais quem. Quer dizer, ele brincou de Getúlio Vargas e Getúlio Vargas só teve um. E segundo, essa história de fraude… Teve fraude, sim. Mas eu não perdi a eleição só por causa da fraude. Perdi porque eu não fui dócil ao todo poderoso da época, que era o presidente Lula. Se tivesse sido dócil com o Lula eu teria tido tantos votos ou mais que o Eduardo Braga. Tive mais votos que o meu adversário aqui, apesar de tudo que fizeram. Sabe quem foi uma pessoa que não me roubou a eleição? Foi a Senadora Vanessa (Grazziotin, PCdoB). Ela foi beneficiada por um processo que envolveu toda a cúpula e na cúpula estava o então governador que se chama Omar Aziz. Estava o senador Eduardo Braga. Então, me unir ao Eduardo, qual é o problema? A Rússia se uniu à Inglaterra para enfrentar o nazismo. Uma guerra tão grave quanto a guerra que enfrentamos aqui nos hospitais, provocada por um desgoverno.  Aliás, um governador que tem um candidato em uma coligação que quer esconder o governador. E eu não faço isso com ninguém, porque não me escondo e não escondo ninguém. O Amazonas está entrando em processo de calamidade, com o governo que tem. Mas simplesmente sei identificar exatamente os pontos fundamentais, entre o Amazonas e Manaus. O Amazonas está entrando em estado de calamidade.

EM TEMPO – Mas, quando o senhor era aliado do governador José Melo (Pros), o senhor fazia essa crítica?

Arthur Virgílio – Sempre separei isso. Quando ele (o governador) fechou os aparelhos de saúde, o que foi que o candidato dele disse?  O que foi que o senador dele disse? Eu protestei, como protestei contra os equívocos na condução da polícia. A polícia não está mal gerida pelo doutor Sérgio Fontes e nem a polícia é impraticável. Ela é boa. O que falta é liderança que o Estado não tem. Agora, quer voltar a eleição? Então por que o senador Omar não impediu o roubo da minha eleição para o Senado. Ele estava lá?

EM TEMPO — Como será sua relação com o senador Eduardo Braga? Meramente política com vistas às eleições ou passa por compromissos administrativos para Manaus?

Arthur Virgílio – Minha relação com o Eduardo é altiva. Ele no tamanho dele e eu no meu.

Em TEMPO – Qual será o limite dessa aliança?

Arthur Virgílio – O respeito, claro. Eu conheço gente que fala alto e depois abaixa a voz para que ouçam o grito dele. Servia água para ele. Vai ali, atende o telefone. Nem ele faz isso comigo e nem eu faço isso com ele. Manda atender o telefone. Se ele um dia me mandar atender o telefone vai tocar até cair. Eu mantenho minha altivez de Ajuricaba. E essa altivez ninguém quebra.

 EM TEMPO – Como o senhor precisa atuar para chegar aos eleitores?

Arthur Virgílio – Nós já estamos chegando aos eleitores. Vamos ter farto tempo na televisão. Vamos ter vasto tempo de inserções. Nós temos trabalho para apresentar, temos um bom vice, que é um privilégio ter um vice como o Marcos Rotta (PMDB), pelo equilíbrio, pela capacidade de colaborar, cooperar, por ser uma pessoa que revela uma maturidade política muito grande e mais: uma enorme densidade eleitoral. Era quem realmente ameaçava nossa eleição. Até porque perdia sistematicamente no primeiro turno, passou a ganhar sistematicamente no ano de 2015 em todas as pesquisas de segundo turno.  Em 2016 eu equilibrei e passei um pouquinho. Mas seria uma luta muito difícil.

EM TEMPO – O senhor ganha a eleição?

Arthur Virgílio – Temos tudo para chegar à vitória pela defesa de Manaus que fazemos, pela segurança de governabilidade que damos, pela experiência que transmitimos. Em uma hora assim do país: 2016 trágico, 2015 trágico e 2017 difícil. Enfrentamos a crise da Zona Franca, que afetou a arrecadação do Estado. Mas, em março o 13º já estava depositado e quando chegava julho, pagamos. A parcela de dezembro já está sendo poupada para pagarmos no prazo. Mantive o compromisso fundamental com a cidade, cortei e preservei os investimentos como pude e governei com o cerco federal, governei com a crise mais grave que o brasileiro já experimentou desde que a história começou.

EM TEMPO – Comenta-se que o senhor, reeleito prefeito, fica no cargo só mais 2 anos e parte para o Senado. Procede?

Arthur Virgílio – Eu nunca fui um deputado de ficar no relento. Eu sempre dei o recado do Amazonas para o Brasil.  Como ministro, eu coordenava as relações do governo, a câmara social era comigo. Já fui prefeito lá atrás e infelizmente, como gestor de primeira viagem cometi equívocos graves no primeiro ano da administração. No segundo melhorei. No terceiro ano melhorei mais ainda e no quarto ano estava pronto. Nesse último ano eu era o prefeito ideal. Quem sabe se Gilberto Mestrinho tivesse vencido aquela eleição seria pior para mim, mas melhor para Manaus? Depois de tudo isso vou lhe dizer o que eu gosto: gosto do Executivo. Adorei minhas passagens no Executivo. Adorei ser prefeito de Manaus, embora Manaus não mereça. Manaus não é para 1º emprego e, sim, para quem está feito. Nada me dá mais prazer do que estar com o povo.

EM TEMPO – O que é melhor para um político-gestor: o vigor dos 40 anos ou a sabedoria de 70?

Arthur Virgílio – A sabedoria de 70. E faço um desafio: quero saber quem é que, com 30, 40 anos tem o meu vigor de subir a escada, ladeiras e barrancos como eu subo, na frente de todo mundo? Na rua ando feito foguete de um lado para o outro. Tenho uma vida de esportista e uma cabeça que me dá um coração de leão para resolver os momentos decisivos. E não falha. Eu não sou de perder pênalti.

Por Mario Afolfo

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