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Entrevista exclusiva: ‘Sou um felizardo em treinar o Flamengo’, diz técnico Zé Ricardo

                Zé Ricardo durante partida do Flamengo pelo Campeonato Brasileiro 2017 – Andre Mourão

Contestado por boa parte da torcida, mas com a confiança da diretoria, José Ricardo Mannarino, mais conhecido como Zé Ricardo, é treinador do Flamengo e faz parte da nova safra de “professores” do futebol brasileiro. Atualmente, é o profissional há mais tempo à frente de um clube da Série A. Mesmo após a eliminação precoce na fase de grupos da Libertadores, ele resistiu ao troca-troca de técnicos do país. Em conversa com o EM TEMPO, o carioca, de 46 anos, fala de seu início no futebol, do ambiente no Flamengo e das expectativas para o futuro.

EM TEMPO : Como jogador você se aposentou ainda nas categorias de base. Qual foi o motivo de acabar prematuramente sua carreira de jogador de futebol?
Zé Ricardo: Tentei o quanto pude, mas percebi que não poderia evoluir mais do que apresentava naquele momento. Apesar de amar jogar futebol, não tinha os necessários requisitos técnicos para evoluir na carreira. Daí, fui buscar realizar meu sonho de outra forma.

EM TEMPO: Do futebol de campo você migrou para o futsal, onde treinou a tradicional equipe de futsal da Vila Isabel. Seu trabalho como treinador no futsal foi fundamental em sua carreira?
Zé Ricardo: Certamente que sim, já que o futsal é ainda hoje no meu modo de entender, um grande celeiro de atletas e profissionais para o futebol de campo. Além disso, como havia praticado e amava jogar, tinha verdadeira adoração em desenvolver meus atletas com essa modalidade. Tudo que se faz com amor tende a sair bem feito, e acredito que cumpri bem essa fase da minha trajetória.

EM TEMPO: Você chegou ao Flamengo em 2005 e conquistou Copa São Paulo ano passado. Como foi esse trabalho na base do clube?
Zé Ricardo: Muito bom e prazeroso. Confesso, não imaginava chegar ao profissional do clube como aconteceu, até porque não são frequentes em grandes clubes trajetórias como essa. Mas me preparei para esse momento, vivendo intensamente cada etapa e pensando dia a dia no melhor para o clube e para os meus atletas. Me sinto muito feliz em fazer o que faço e no clube que faço.

EM TEMPO: Como foi assumir no lugar do consagrado Muricy Ramalho? Como foi a emoção na primeira partida à frente do Fla?
Zé Ricardo: Inesquecível, mas muito difícil também. O Muricy, além de super vitorioso e competente, é uma grande referência no futebol. Substituí-lo por motivo de saúde num momento que a equipe e o Flamengo estavam em transformação (e ele era parte fundamental desse processo), demandou muito esforço de todos os setores do clube. E fui um felizardo nesse aspecto, pois tive o auxílio de muita gente boa para ultrapassar aquele momento e conseguir colocar o Flamengo novamente brigando pelas principais colocações no Campeonato Brasileiro.

EM TEMPO:   Ao assumir o Flamengo, você estava preparado para ser treinador da equipe mais popular do Brasil e toda uma pressão por resultados da torcida e diretoria?
Zé Ricardo: Tecnicamente sim, mas lógico não serei hipócrita em dizer que a experiência era a ideal. Novamente com o apoio de muitas pessoas, inclusive profissionais da base, fomos evoluindo nesse aspecto. E continuaremos assim, pois a vida é e sempre será um eterno aprendizado. Sempre em busca do conhecimento.

EM TEMPO: Como você define a emoção de conquistar o Campeonato Carioca de forma invicta em cima do Fluminense?
Zé Ricardo: Maravilhoso! Foi um dos dias mais felizes da minha vida profissional. Sou nascido e criado no Bairro do Maracanã e ainda hoje vivo muito perto do estádio. Cresci vendo jogos inesquecíveis, emblemáticos e poder estar ali, disputando um Fla x Flu, com o estádio lotado parecia um sonho. E foi. Um sonho de criança, realizado não como jogador, mas como treinador de um clube fantástico, com a maior torcida do Brasil. Ficará pra sempre na minha memória.

EM TEMPO: O Flamengo tem chances de lutar pelo título Brasileiro ou ainda é muito cedo para afirmar isso?
Zé Ricardo: Não começamos bem a competição e agora buscamos uma recuperação. Ainda é cedo pra qualquer prognóstico, mas lógico que, com as condições que temos, queremos e iremos trabalhar para buscar essa conquista.

EM TEMPO: A eliminação na Libertadores foi algo que não se esperava. Como superar isso?
Zé Ricardo: Muito difícil e ainda dói em todos nós, principalmente do jeito que foi. Mas precisamos pensar para frente e tirar as lições que tivemos dessa eliminação para nos fortalecer para o futuro.

EM TEMPO: Você citou em uma entrevista que o esquema 4-1-4-1 pode variar taticamente para o 4-4-2 ou para o 4-2-3-1 com facilidade. Pode explicar porque admira tanto esse esquema tático e desde quando adota?
Zé Ricardo: Acredito ser de fácil fixação para os atletas e a variações também são simples e, principalmente, eficazes no desenvolvimento das partidas. Como plataforma “raiz”, podemos organizar a equipe com situações de saída de quatro ou de três jogadores.

EM TEMPO: Você foi convidado para treinar a seleção brasileira Sub-15 em 2015. Depois de 48 horas, recusou o convite e afirmou numa entrevista que foram as horas mais difíceis de sua vida. Por quê?
Zé Ricardo: Tinha acabado de assumir o sub-20 do clube e estava muito animado com os primeiros resultados da categoria e as projeções futuras. Ao mesmo tempo, representar o meu país era e ainda é um sonho, que veio naquela ocasião na forma de treinador da sub-15. Durante dois dias pairou uma série de questionamentos na minha cabeça e, em conversas com amigos e familiares mais dúvidas. No final, respondi com o meu coração e fiquei no Flamengo. Acabamos campeões estaduais naquele ano vencendo os dois turnos e, com aquela base, conquistando de forma invicta a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2016.

EM TEMPO: O que você pensa e espera do seu futuro no futebol como um todo?
Zé Ricardo: Penso que o esporte continuará se desenvolvendo nos aspectos físicos e táticos, mas que o grande diferencial continuará sendo a técnica. Cada vez mais, em jogos de muita intensidade e equilibrados na sua organização, o jogador inteligente, saudável e técnico irá fazer a diferença. Hoje, como todos nós já vimos e constatamos, não existe mais bobo no futebol. E a tendência é essa máxima cada vez mais se fazer valer.

Paulo Rogério
EM TEMPO

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