Política

Em vez de debater a capital, base aliada da CMM foca críticas no governo federal

 

Sem poder criticar, questionar e mesmo fiscalizar atos da Prefeitura de Manaus ou do governo do Estado, debater a cidade, seus problemas e discutir soluções, os vereadores da base governista da Câmara Municipal de Manaus (CMM) – que são quase sua totalidade – não têm alternativa a não ser direcionar o discurso para o governo federal e o PT.

Nas últimas semanas, conforme levantamento feito pelo EM TEMPO, os vereadores da situação parecem ter adotado um discurso único: atacar o governo Dilma e a crise política e econômica pela qual passa o país. Em alguns momentos, o plenário da CMM mais parece um ringue com dois lutadores: de um lado a maioria esmagadora com sua metralhadora contra o governo federal e, de outro, os três vereadores do PT tentando defender o mandato de Dilma e sua equipe ministerial.

Para o antropólogo e coordenador do Núcleo de Ciência Política da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Ademir Ramos, isso é o que se chama de análise do discurso, onde todo discurso é contextualizado. “O que acontece é que os partidos políticos fazem parte de um grupo de situação e outro de oposição e isso faz com que fiquem sem pauta. Com isso, eles procuram um campo local para afirmar-se em um discurso”, analisa o especialista.

Conforme Ademir, isso significa andar na contramão. Para ele, o discurso dos políticos é reducionista, em que perderam a dedução da transformação e onde as questões nacionais afetam a local. Segundo ele, esse discurso está em conflito tanto na esfera municipal quanto na estadual. O antropólogo salientou que as bancadas deveriam ser mais orgânicas com o lado social, deixando de ser submissas.

“Aqui no Amazonas, onde o prefeito é do PSDB, que não apoiou a reeleição de Dilma, do PT, e o governador do Pros, que apoiou a petista, cujo partido é um dos principais ‘desafetos’ do chefe do Executivo municipal, isso faz com que se construam discursos voltados para cima do governo federal, tornando discursos particulares”, disse Ramos.

Já o sociólogo e professor do Departamento de Ciências Sociais e de Pós-Graduação de Sociologia da Ufam, Marcelo Seráfico, afirma que os vereadores – cuja atuação tem a ver com a representação de interesses dos grupos sociais e de interesse do município, além de acompanhar uma linha de pensamento, no qual estão inseridos – acabam por se tornar apêndices do Poder Executivo municipal, uma espécie de “clientes” do prefeito Arthur Neto.

Assim, eles acabam abrindo mão de suas prerrogativas, que é fiscalizar o Executivo. “A atitude de bater o governo federal é uma extensão do que o prefeito faz, o problema disso, é que o papel do vereador, que é acompanhar o trabalho que é feito pelo Poder Executivo municipal, acaba se perdendo”, disse Marcelo.

Defesa
Para o vereador Marcelo Serafim (PSB), toda a crise econômica que o país vem vivendo foi ocasionada por propostas do próprio governo federal, articulado pelo ex-presidente Lula (PT). E, por conta desse cenário, ele afirma que as críticas ao governo Dilma devem permanecer.

“Todas essas dificuldades vêm por meio da roubalheira que essa quadrilha vem fazendo, e não devemos ficar omissos a isso. Como parlamentar, estou fazendo o meu trabalho. Toda vez que identifico um problema, seja em mandato de quem quer que seja, eu subo no plenário e falo”, disse.

Já o petista Professor Bibiano, diz que a Câmara acabou se tornando um anexo à prefeitura, e a estratégia é encobrir a incompetência do governo do municipal trazendo o discurso para esfera federal. “Isso é um absurdo, uma vez que a Câmara deveria ser órgão fiscalizador dos atos do Executivo e não é bem isso que acontece. Uma vez que os vereadores são pagos para defender o povo, para fiscalizar os atos do prefeito. Os problemas da cidade de Manaus são tão gritantes, mas demos poucas vozes para tratar desse assunto”, criticou.

O EM TEMPO procurou o líder do prefeito na CMM, vereador Elias Emanuel (PSDB), mas ele não foi encontrado para comentar essa postura da base governista.

Por Henderson Martins

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