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Em Manaus, casos de abandonos de menores nos últimos 12 meses, são alarmantes

De acordo com a delegada Juliana Tuma, abandono de incapaz e maus tratos vem se tornando prática comum - foto: Ione Moreno

De acordo com a delegada Juliana Tuma, abandono de incapaz e maus tratos vem se tornando prática comum – foto: Ione Moreno

De janeiro a fevereiro deste ano, os casos de abandono de incapaz e maus tratos a crianças já representam 14,6% do total de 2015 em Manaus. No ano passado, foram 236 ocorrências, conforme dados dos Conselhos Tutelares. Nos dois primeiros meses de 2016, foram 35 registros. A delegada titular da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), Juliana Tuma, disse que esse tipo de crime vem se tornado comum.

Os casos de maior incidência são cárcere privado ou abandono em condições desumanas pelos próprios pais, durante dias, em suas residências. Os números de 2015 são avaliados como assustadores por se tratar de agressão por quem deveria oferecer proteção. De janeiro a dezembro do ano passado, a especializada atendeu 201 casos de abandono de incapaz, com maus tratos.

“A lei não faz distinção de idade, mas claro que deixar uma criança menor de 15 anos de idade em casa sozinha não tem condição, é algo inaceitável e sem justificativa. Essas situações vêm se tornando rotina, prova disso são os números apresentados pelos Conselhos Tutelares nos últimos meses, que são alarmantes. Nós da Depca fazemos o possível para que os culpados sejam penalizados”, salientou Juliana.

Casos recentes

No último fim de semana, uma menina de apenas 5 anos, foi resgatada pela Polícia Militar, em uma casa localizada no bairro Jorge Teixeira, Zona Leste, após passar dois dias trancada em um quarto, em condições insalubres, sem comida e bebida. De acordo com a polícia, a criança só não morreu de fome e sede porque comeu as próprias fezes e bebeu a urina. A criança foi internada no pronto-socorro Joãozinho, na Zona Leste, e recebeu alta na tarde de domingo.

A delegada Juliana Tuma explicou que os suspeitos pelo crime, a avó e o companheiro, não tiveram a prisão anunciada no momento da apresentação na Depca, em virtude da localização dos mesmos, que só foi feita 24h após o resgate da criança. O casal confirmou em depoimento que era acostumado a deixar sozinha a menina por muitos dias, foi indiciado por cárcere privado e abandono de capaz.

“Já havia passado o flagrante, nós não tínhamos o mandado de prisão e não poderíamos segura-los por mais de 48 horas. Mas adianto que já estou providenciando junto ao judiciário medidas cautelares. O importante que essa criança saiu da guarda dessas pessoas, caso contrário ela iria morrer com certeza. Esse crime chocou todo o sistema”, observou a delegada.

Em março, um menino também de 5 anos de idades, morreu carbonizado durante um incêndio, ocorrido em um dos apartamentos do Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim), no bairro Santa Luzia, Zona Sul, onde ele morava com a família. Na ocasião, a criança estava na companhia de dois irmãos, um de 3 anos e outro de 18 anos.

O Corpo de Bombeiros, que atendeu a ocorrência, informou à época que o irmão mais velho ainda tentou salvar o menino, mas no desespero tirou primeiro o mais novo, e quando voltou para resgatar o outro irmão, as chamas já estavam tomando conta do ambiente, o que o impediu de salva-lo. A avó paterna, Anésia Carvalho, 64 alegou que os pais sempre deixavam os filhos sozinhos em casa para poder ir ao trabalho, mas que eram alertados por ela sobre o risco.

Danos podem ser irreversíveis

O psicólogo Jorge Trajano explicou que o mau comportamento dos pais ou responsáveis pela guarda do menor está ligado a vários fatores, entre eles, estrutura família, financeira e distúrbios. Segundo o profissional, esses tipos de crimes cometidos pelos próprios familiares deixam danos emocionais irreversíveis na criança. “Atualmente o desamor tem sido constante dentro das famílias, principalmente entre as mais carentes financeiramente. A grande responsabilidade de cuidar, criar e proteger os filhos, infelizmente ainda não é avaliada por muitos casais, que decidem ter os herdeiros, mas no decorrer do processo acabam se arrependendo, dando prioridades para outras situações. A falta de planejamento familiar e até a negligência tem provocado esse tipo de crime. Existem diversas formas de abandonos daqueles que precisam de cuidados especiais”, disse.

Jorge destacou que além de sofrer o abandono, o menor levará por toda a vida marcas de um crime. Entre os danos mais comum que interferem na formação da fase adulta estão a falta de compromisso e a quebra do laço familiar com os pais, sem vínculo afetivo, a falta de respeito, entre outros transtornos psicológicos, que podem ou não ser tratados. “Muitos adultos são criticados por deixaram seus pais em asilos, mas quando vamos ver o histórico da vida desse filho, na maioria dos casos a pessoa sofreu abandono, seja do mais leve, como o esquecimento na escola, ao mais grave, como esses que vemos diariamente. Somos o reflexo das atitudes dos nossos pais. Se plantarmos amor, colheremos amor, agora se plantarmos desamor, não podemos esperar outra coisa”, concluiu.

Por Gerson Freitas

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