Política

Eleição atípica traz à tona falta de renovação

Há mais de uma década que, em todos os pleitos eleitorais, os mesmos atores políticos estão na disputa, seja direta ou indiretamente – EM TEMPO

Com a realização de uma eleição suplementar inédita para o governo do Amazonas, marcada para o dia 6 de agosto, veio à tona uma preocupação que já ronda os partidos políticos e mesmo os eleitores: a falta de renovação dos quadros políticos. Com essa reviravolta, caciques e legendas buscam, freneticamente, compor uma aliança com pré-candidatos que possam representar uma esperança para a população.

Mas, a exemplo das cinco últimas eleições, as figuras que se movimentam para disputar esse pleito atípico são praticamente as mesmas, com discursos e práticas já conhecidos dos
eleitores.

Num levantamento feito pelo EM TEMPO, desde as eleições de 2008 até a deste ano, que acontece dentro de três meses, mais da metade dos nomes que se apresentam, como o ex-prefeito Amazonino Mendes (PDT) e o senador Eduardo Braga (PMDB), já são velhos conhecidos das urnas.

Além de os mesmos atores políticos se movimentarem para disputar este pleito, direta ou indiretamente, a eleição suplementar se desenha para uma polarização, como tem acontecido nos três últimos pleitos.

As convenções partidárias, que definirão candidatos e alianças, somente acontecerão entre os dias 12 e 16 de junho, mas alguns políticos se adiantaram e lançaram pré-candidaturas, e tentam ser uma terceira via para os eleitores, como os deputados estaduais José Ricardo (PT) e Luiz Castro (Rede), que disputaram as eleições municipais de 2016, no cargo de prefeito, e também o ex-deputado Marcelo Ramos (PR).

Para o analista político Afrânio Soares, várias situações estão envolvidas para a participação dessas mesmas figuras. Ele afirma que uma delas é que esses pré-candidatos virão, mas com intenção de não ganhar, e sim de projetar o seu nome para a próxima eleição.

“Esse é um caso, por isso que se pode ver uma certa movimentação. As figuras repetidas aparecem, porque não temos substitutos que venham ter o carisma que esses políticos mais antigos possuem. E se surgisse um indivíduo novo, completamente fora da política, eu tenho quase certeza de que ele não seria bem
votado”, analisou.

E um dos empecilhos para a carência de votos numa eleição majoritária para uma figura “novata” na política, explicou Afrânio, é desconhecimento do eleitor do interior do Estado. “Esse candidato seria acusado de não conhecer o interior e ter um plano de governo que não contemplaria os anseios dessa população, que está acostumada a ter e ver os políticos tradicionais”,
disse Afrânio.

O especialista cita como exemplo a liberação do benefício do Bolsa Família a mais do normal para aquela certa população. “Então, o povo está acostumado, e isso ajuda a ganhar eleição como propostas e conjunto de ações. Muitos ainda querem a velha política de populismo. Por isso que esses nomes que se sobressaem. Mesmo que lance muitos candidatos, provavelmente vai ficar entre um candidato de um grupo e de outro. O restante apenas adere”, pontuou.

‘Curta e difícil’

Já o sociólogo Carlos Santiago ressaltou que essa eleição será bastante curta e difícil para que surja uma figura nova. “Um pleito imenso, porque atinge 62 municípios e não será fácil para os candidatos chegarem a atingir toda essa população. Vai ser uma campanha que para você conseguir ir para o segundo turno, é preciso compor alianças partidárias e políticas de caciques. Portanto, não haverá muito fôlego neste pleito para novos nomes”, afirmou.

Ele ainda destaca que esta eleição será de total proveito para alguns candidatos, que vão buscar se consolidar como uma nova alternativa política. “Isso está sendo uma aposta do PMN, PHS, PT, da Rede. Mas, mesmo assim, essas legendas que estão apostando em nomes futuros são as que já foram testadas nas urnas. Como o vereador Chico Preto, os deputados Luiz Castro e José Ricardo. Isso inclui também o ex-deputado Marcelo Ramos. Então, não é algo novo e diferente. E somando isso tudo, tem ainda os antigos caciques, como Eduardo e Amazonino, pois ambos possuem uma vida política longa desde 1982”.

Questionado por que em todas as eleições sempre as mesmas figuras políticas participam ou apoiam, Santiago afirma que é porque esses políticos possuem o controle de seus respectivos partidos. “Todos eles controlam seus partidos, dando a facilidade de controlarem suas legendas e se colocarem na alça de disputar o pleito com a preferência sempre. Isso dificulta o surgimento de outras pessoas. Isso conta nas pesquisas eleitorais. Se você vir, Amazonino e Eduardo participaram praticamente de todas as eleições. Dificilmente eles não são conhecidos. Na hora da pesquisa, quando coloca o nome dos dois, acabam sobressaindo”, observou.

Partidos políticos

O escritor e jornalista Aldisio Filgueiras ressalta que a falta de renovação se dá pelos partidos políticos que, para ele, são uma farsa na democracia brasileira. “Neste momento, são 35, com 28 representados no Congresso Nacional, e existem mais 57 siglas esperando registro. Não representam nada e ninguém, divorciados da sociedade desde a fundação, uma simples ata que qualquer time de futebol de várzea preenche e leva ao cartório. Tudo o que o povo faz é votar e pagar o fundo partidário que sustenta esse estelionato. Os políticos e seus clubes de recreação desmoralizam a política, contribuem para o afastamento do cidadão do processo decisório e se proclamam representantes e, mais do que isso, donos dos processos decisórios”, disse.

Ele ainda salienta que a cada dia a abstenção é maior entre o eleitorado, citando que é mais barato pagar R$ 3 de multa do que sofrer a “humilhação de pagar o pato” da eleição. “Alguém já observou que os governadores do Amazonas, com a exceção de Danilo do Matos Areosa e Gilberto Mestrinho, são filhos do interior e jamais governaram senão para Manaus. Eles ainda são capazes de dizer em campanha que o interior está abandonado”.

Diogo Dias
EM TEMPO

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