Editorial

É só um protocolo

Desejar um próspero Ano-Novo já teve seu tempo áureo. Sentia-se um entusiasmo energizando a expressão, a traduzir a sinceridade do desejo. Havia uma quase certeza de que realmente o ano seria novo e próspero, e mais: “repleto de saúde e alegria”.

Desejava-se tudo para os outros – sim, para os outros que costumam ser o inferno -, porque estava-se, certamente, repleto dessas benesses que sobravam em todos os corações e bolsos. “Salud, pesetas y una mujer de buenas tetas”. E o champanhe era derramado no copo de quem não tinha taça, como os fogos estilhaçavam o céu com explosões de estrelas de artifício.

O “Feliz Ano-Novo” ficou chocho neste 2015. No discurso dos eleitos e reeleitos, as entrelinhas insistiam na triste perspectiva: se o Brasil não acabar, estamos no saldo. O Amazonas quer salvar o Brasil e sugere um mutirão de baldes e bacias e carros-pipas, lá onde o rio Amazonas se torna o maior afluente do Atlântico, para levar aos brasileiros a água que falta em sua lata na cabeça. Um vereador afoito de Manaus quer garantir em lei 20% das vagas do serviço público municipal ao negros e afrodescendentes em geral, sem ter aprendido na escola que Amazonas não “produziu” tantos afros assim e será necessário trocar a água do rio Amazonas por um contingente de negros da Bahia ou do Maranhão.

O Brasil vai cortar na pópria carne (de quem, com o novo salário mínimo e o máximo dos que se situam no alto da cadeia alimentar?), e o Amazonas também. Festival de Ópera, só de dois em dois anos (dois pra lá, dois pra cá). Cultura não enche barriga. Enfim, o jeitinho brasileiro de não tocar nos privilégios monárquicos da elite republicana brasileira está em pleno processo. Na voz do saudoso Gonzaguinha: “Em tempo ruim, todo mundo também diz bom-dia”.. Cumpra-se o protocolo. Feliz Ano-Novo.

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