Artigos

E é carnaval

José-Aldemir-de-Oliveira

O carnaval é para mim o período mais longo do ano. São fins/inícios de semana intermináveis que antecedem a outro igualmente interminável. Embora seja uma festa ancestral que retoma os rituais pagãos, não há meias palavras, eu odeio carnaval.

Nem as ponderações que me faz a minha colega Professora Paola Verri de Santana que escreveu um belo livro sobre festas populares na cidade e que me aponta o lado bom da folia, recorrendo a Guy Debord para quem toda a vida das sociedades, nas quais reinam as modernas condições de produção, se apresenta como imensa acumulação de espetáculos, são capazes de me convencer ou demover meu desapreço.

Não há motivos aparentes para essa aversão. Talvez sejam as marchinhas que nos antigos carnavais podiam resvalar para o não politicamente correto, lembro-me de oitiva de uma do Lamartine Babo com versos mais ou menos assim: “O teu cabelo não nega Mulata/ porque és mulata na cor/ mas como a cor não pega/ Mulata/ Mulata quero o teu amor”. Embora possa parecer racista e machista, os tempos eram outros, e não é por isso que eu detesto carnaval, eu também detesto tudo o que se pretende politicamente correto.

Talvez seja porque aqui e alhures, em cidades grandes e pequenas, a festa é financiada com recursos públicos, e as marchas ou sambas de enredo são agora politicamente engajados, e por trás de cada um, muito além da harmonia ou da qualidade poética, há outros interesses nem sempre escondidos. Também não é por isso, quem financia deve saber o que faz e cada um empresta a sua pena e a sua voz para os fins que lhe convém.

Talvez seja pela bagunça total que gera. Foliões fazem barulho e provocam engarrafamentos e interdição de ruas e marmanjos aproveitam e se vestem de mulher chamando a atenção e provocando as pessoas. Mas isso também não é exclusividade do carnaval, pois no nosso agora em cidades como Manaus e outras há engarrafamentos em todo o tecido urbano o tempo todo e não dá para dizer que homem vestir-se de mulher ainda seja fantasia.

Os defensores acodem que o carnaval é a subversão da ordem. Mas que ordem? Subverter a ordem mesmo que por algum período seria o funcionamento das instituições, ou seja, a Justiça fazer justiça, o executivo executar, o legislativo legislar, a polícia proteger, a Prefeitura prefeiturar, as escolas, que não as de samba, ensinarem. As pessoas fazerem a sua parte seria de “bom ton”, não estacionar nos lugares reservados aos idosos e deficientes, jogar o lixo em lugares apropriados, respeitar o sinal de transito. Ou seja, cada um cumprir seus deveres e cobrar seus direitos e agir no seu cada qual.

Como tudo sempre tem um fim, eu torço para que os intermináveis dias passem logo. Enquanto a chuva refresca, ou o sol esquenta a vida e os foliões, fico à espera do amanhã e, como nos versos do Chico, “tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr”, ou seja, é só questão de tempo e no próximo ano tem mais, ainda bem que tem também a quarta-feira de cinzas.

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

To Top