Editorial

E aqueles “outros” civis?

É preciso insistir: tanto quanto a perseguição sofrida, também, por militares que se opuseram ao golpe de 1964 (contam-se mais de sete mil, mortos, desonrados, desaparecidos), a participação de segmentos influentes da sociedade civil na construção de um Estado de exceção tem sido pouco debatida. Parece mesmo que o assunto tem sido evitado, priorizando o inimigo mais visível, porque armados e mais disciplinados e, também, por assumirem o que estavam fazendo, sem precisar de elementos “laranjas”; ao contrário, cada vez fica mais parecendo que os militares das três armas foram os testas de ferro de uma quadrilha de malfeitores civis, de que até hoje o país não conseguiu se livrar.

O projeto “Brasil: Nunca Mais” sistematizou informações de processos do Superior Tribunal Militar e constatou que 6.500 militares foram perseguidos. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) não descarta a dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em que a pesquisadora Flavia Burlamaqui Machado fala em 7.488 militares. “Os dados ainda são imprecisos, porque os nomes começam a aparecer, mas os militares são o grupo proporcionalmente mais atingido. A cirurgia expurgatória foi praticamente completa”, afirmou o consultor da CNV e professor de Teoria Política da Universidade Estadual Paulista (Unesp), historiador Paulo Cunha.

E quanto à responsabilidade dos civis? Não se trata de quem pegou em armas nem do enfrentamento dos grupos inimigos. É preciso saber quem – industriais, comerciantes, latifundiários, religiosos de várias denominações, acadêmicos, funcionários públicos e profissionais liberais, oportunistas de todos os matizes – arquitetou a tragédia que se abateu sobre o Brasil. A comissão não terá chegado à verdade se não esclarecer esse descaminho.

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