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Drama: imigrantes buscaram o Amazonas para recomeçar e viver a paz que não encontram em seus países de origem

Yamen Siagha observa o rio Negro, em Manaus, onde começou uma nova vida – foto: Ione Moreno

Yamen Siagha observa o rio Negro, em Manaus, onde começou uma nova vida – foto: Ione Moreno

Atrás do balcão de uma tradicional loja de cama, mesa e banho do centro comercial de Manaus, o empresário sírio Z.A., 30, agradece pela compra do cliente falando com um português já fluente, mas com sotaque. O sorriso de satisfação, na verdade, esconde marcas que o administrador prefere esquecer.

Há 2 anos, Z.A. deixou a Síria, seu país natal que está imerso em uma guerra desde março de 2011, para pedir refúgio em busca de um nova vida de paz no Amazonas. Oriundo da região de Homs, na parte central da Síria, o refugiado deixou para trás os pais, os irmãos e os amigos, alguns dos quais não encontrará mais quando retornar ao seu país de origem, pois foram mortos na guerra. “Um dos meus amigos foi decapitado por grupos armados extremistas que são apoiados por países estrangeiros que querem sabotar a Síria”, conta.

Segundo ele, a situação atual do país está difícil e contrasta com o período anterior ao do conflito. Z.A. explica que antes da guerra, os cidadãos sírios tinham o direito de ir e vir sem serem questionados, possuíam liberdade social e também religiosa.

“O Estado é laico e ninguém perguntava se você era muçulmano, cristão, druso ou ateu. Agora, nas regiões controladas pelos grupos armados, incluindo muitos estrangeiros, que chamam cinicamente de oposição armada, as pessoas são mortas por causa de sua fé. Se o governo da Síria perder essa guerra, tudo estará perdido para as minorias”, revela o empresário cristão ortodoxo, ao destacar que esse tipo de prática sectária visa causar desunião entre o povo sírio.

Devido a essa situação de violência e de instabilidade econômica, Z.A. decidiu deixar a Síria e pediu refúgio ao governo brasileiro, que aceitou sua solicitação em 2013. A escolha pelo Amazonas não foi por acaso. O empresário já possui parentes que estão há décadas estabelecidos na capital amazonense. “Gosto muito daqui, mas penso em retornar à Síria tão logo a guerra termine”, afirma, ao salientar que pretende cuidar das plantações de maçã que a família possui na região de Wadi Al-Nassara, no distrito de Homs, no Oeste da Síria, próximo à fronteira com o Líbano.

Pedidos
Z.A. é um dos 11 cidadãos sírios que entraram com pedido de refúgio registrado na Polícia Federal (PF) do Amazonas. Os sírios compõem o sexto maior grupo que pediu refúgio no Estado e o terceiro na lista dos imigrantes oriundos do Oriente Médio. O ranking geral é liderado pelos venezuelanos, com 225 refugiados, seguidos por cidadãos da República Dominicana (55), de Cuba (42), da Colômbia (38), do Paquistão (19) e da Palestina (12), de acordo com a Delegacia de Polícia de Imigração da PF do Amazonas.

Segundo a agente federal da Delegacia de Polícia de Imigração, Adriana Sá, todos os pedidos de refúgios recebidos pela PF no Amazonas são encaminhados e analisados pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), que é o órgão encarregado de formular a política sobre refúgio no Brasil.

Guerra mudou planos

O jornalista Yamen Siagha, 29, também conseguiu refúgio no Amazonas, após deixar sua cidade natal Sweidah, no sul da Síria, próxima da fronteira com a Jordânia.

Ele obteve o status de refugiado em 2012 porque fugiu da violência que ceifou a vida de dois de seus irmãos no bairro Tadamoun, que fica dentro do campo de refugiados palestinos de Yarmouk, nos arredores de Damasco, na capital da Síria. “Até hoje não sabemos quem os assassinou, se foi o governo ou se foram os grupos armados”, conta com a voz embargada ao lembrar que deixou para trás os pais e outros dois irmãos.

De modo geral, a cidade de Sweidah, de maioria drusa, é favorável ao governo. Porém, o grande número de refugiados que a região recebeu deixou o local instável.

Siagha revela que ao terminar a faculdade de jornalismo queria trabalhar na área escolhida para atuar, porém não obteve sucesso, pois ele havia sido convocado para o serviço militar, que é obrigatório na Síria.

“Não queria servir o exército por conta dessa situação da guerra. Por este motivo, deixei o país para trabalhar como jornalista em Dubai e no Qatar, que recusaram meu pedido. Vim para o Amazonas porque tenho parentes que me acolheram. Gosto muito daqui e do povo amazonense, que é acolhedor e não faz a gente sentir que viemos de
outro país”, enfatiza.

 

Por Anwar Assi

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