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Documentos apontam que Pinochet acobertou assassinato de manifestante

Documentos dos EUA publicados nesta sexta-feira (31) indicam que o então ditador chileno Augusto Pinochet acobertou a participação de militares na morte de um manifestante em 1986.

Rodrigo Rojas, 19, morreu após soldados jogarem gasolina sobre seu corpo e atearem fogo. A também manifestante Carmen Quintana, à época com 18 anos, que estava junto com Rojas, teve 60% do corpo queimado, mas sobreviveu. Com cicatrizes por todo o corpo, ela se tornou símbolo da luta pela democracia, obtida após a renúncia de Pinochet, em 1990.

Documentos do Departamento de Estado americano recém-abertos ao público citam uma fonte na força policial do Chile dizendo que um relatório interno da corporação havia sido apresentado a Pinochet, identificando os responsáveis pelo ataque aos jovens. O general, no entanto, se recusou a acreditar.

Os papéis foram publicados pela National Security Archive (NSA), uma organização não governamental com sede em Washington.

Segundo testemunhas, homens uniformizados, depois de atear fogo nos ativistas, os abandonaram em uma vala na periferia da capital, Santiago. O caso aconteceu durante uma manifestação, em 2 de julho de 1986.

Rojas, um fotógrafo que morava na capital dos EUA com a mãe, uma chilena exilada, morreu no hospital, quatro dias depois. Pinochet acusou ele e Quintana de serem terroristas que se queimaram com artefatos explosivos que eles mesmos produziram para jogar contra os soldados. O Exército negou qualquer envolvimento.

O jovem, cuja mãe, Veronica de Negri, havia sido torturada por integrantes do regime militar, estava em visita ao país natal.

Na época, o evento causou consternação e atraiu a atenção de grupos de defesa dos direitos humanos e governos. A administração de Ronald Reagan, então presidente norte-americano, exigiu uma investigação profunda e responsabilização judicial.

Os documentos que vieram à tona citam “uma fonte confiável de dentro dos Carabineros”, a polícia nacional do país, afirmando que a apuração interna apontava como responsáveis “membros de uma unidade de patrulhamento de rua do Exército”.

Os papéis ainda relatam que, além de a ação dos soldados ter sido deliberada, o diretor do hospital central barrou a transferência de Rojas para uma clínica melhor preparada para atendê-lo.

“Os arquivos confidenciais dos EUA ratificam o que eu tenho dito, junto com meus pais e advogados, por 29 anos: de que tudo isso foi orquestrado desde Pinochet”, afirmou Quintana a repórteres. “Eles revelam a existência de um sistema institucionalizado de mentiras em crimes contra a humanidade e a sistemática política de acobertamento até o presente”.

Os algozes permaneceram impunes até recentemente, quando um juiz indiciou sete ex-militares após o depoimento de um ex-soldado que quebrou o que seria um pacto de silêncio entre os envolvidos. O delator foi identificado como Fernando Guzmán.

De Negri afirmou à Associated Press que Guzmán lhe havia contado que, ao sair do Exército, ele tentou conversar com diversos políticos sobre o que havia acontecido, e queria depor, mas só foi autorizado no final do ano passado.

No total, 40.018 pessoas foram assassinadas, torturadas ou aprisionadas por motivos políticos durante a ditadura de Pinochet (1973-1990), de acordo com dados oficiais. O governo chileno calcula que 3.095 cidadãos tenham sido mortos.

Cerca de 70 oficiais das Forças Armadas estão presos por crimes contra a humanidade, e há outros 700 aguardando julgamento.

Pinochet morreu em 2006, sob prisão domiciliar, sem jamais ter sido julgado por acusações de enriquecimento ilícito e violações dos direitos humanos.

Por Folhapress

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