Cultura

Diretor mineiro de teatro ministra workshop ‘A música em cena’ para artistas locais

Aonde se vai, o que se nota é que a força do teatro brasileiro não está exatamente no diretor, mas na forma de contar a história de todo mundo, diz o diretor – foto: divulgação

Aonde se vai, o que se nota é que a força do teatro brasileiro não está exatamente no diretor, mas na forma de contar a história de todo mundo, diz o diretor – foto: divulgação

O diretor mineiro de teatro Gabriel Villela esteve recentemente em Manaus, a convite do projeto ‘Vivo EnCena’, para ministrar o workshop “A música em cena”, para artistas locais. O EM TEMPO aproveitou a ocasião para trocar impressões sobre o mundo teatral com o diretor de espetáculos como “Romeu e Julieta”, “A Rua da Amargura” e “Os Gigantes da Montanha”, pelo Grupo Galpão, entre outros.

EM TEMPO – O que é o artista?

Gabriel Villela – O artista é aquele que trata da perpetuação da vida sobre a morte. Na essência, é assim. Independe de ele ser dado à literatura, artes cênicas à musica, à escultura. É aquele que carrega em si o DNA da vida e da morte. É muito comum na nossa profissão, morrer-se todos os dias em cena. Se você estiver numa operação shakespeariana, por exemplo, quantas pessoas morrem por dia em cena? O artista tem a experiência viva e eterna sobre a vida e a morte.

EM TEMPO – O que é o difícil e essencial para se formar artista?

GV – No nosso caso, brasileiro, já que somos uma pátria tão miscigenada e tão grande territorialmente, não darmos muita bola para as escolas “estetizantes”. Isso não significa deixar de conhecê-las. É muito importante o estudo. Mas é importante também saber que as escolas, sobretudo as grandes europeias, e dentre elas as de clima frio, como a escola russa, preveem um tipo de articulação de ideias, de voz e de pensamento, voltado para a neve, para temperaturas muito baixas, para uma parede fechada entre a experiência de palco e a observação da plateia. Nós somos da comunicação e patrocinados por orixás, por entidades de comunicação, abençoados por um sol equatorial e tropical, pelo excesso de exuberância. Acho que nosso grande método, na verdade, é a escola do “rebolation”, onde cada um, em cima de sua especificidade, é capaz de criar e se tornar um demiurgo, isto é, um artista capaz de inventar o mundo. Aqui em Manaus, encontrei várias pessoas com essa competência. No Brasil, como um todo, vale aquele que consegue criar um sistema estético sem se preocupar muito em estar obedecendo determinadas rotas acadêmicas ou jornadas estéticas, oriundas de países muito gelados. Embora (Bertolt) Brecht, do qual sou defensor e admirador – não como “escolinha” –, seja também de um país frio. Mas ele morreu em contos quentes. Ele criou entre duas guerras e escreveu essa metodologia a partir da arte popular, que é um grande mérito do Brasil, essa pluralidade contida na arte popular.

EM TEMPO – Você defende a gentileza e cordialidade ao contracenar. Isso é prática comum no teatro?

GV – Nós somos grossos. De forma geral, somos bem estúpidos. Inclusive eu, tento não ser, mas sou. Em teatro, a grande arte é feita sob a égide da cortesia. Não se lida com o cinzel, com o mármore, para transformá-lo em Davi, se suas mãos não tiverem uma delicadeza superior. Não se toca um piano, Chopin, se os dedos não tiverem medição precisa entre a unha e o ébano. No teatro, não podemos chegar ao parceiro de cena e, porque há uma briga de pancadaria no roteiro, espancá-lo de verdade. A cortesia passa por essas reflexões, mas como o teatro congrega todas as artes, é mais complicado porque dentro dele você precisa abdicar do seu ego em benefício de uma formação, de uma expressão de um pensamento coletivo. É nesse sentido que digo que somos grossos. Porque, se deixar, a gente entra lá com o nosso ego e, pode até fazer bonito do mesmo jeito, mas sem cortesia. O ego não pode controlar o ator.

EM TEMPO – Enquanto movimento de teatro brasileiro, você é um dos diretores que possui linguagem própria. Como permanecer nas raízes que o trouxeram ao mundo artístico em detrimento a outros interesses, como outros teatrólogos e diretores parecem ter perdido?

GV – Eu não tenho essa resposta. Entendo que há muitas chances dentro e fora do Brasil. Os artistas formados em academia, como no meu caso, nos anos 1990, e que saíram ao mercado de trabalho, tiveram a chance de viajar muito, a partir da obra de Antunes Filho, por exemplo, que abriu uma grande estrada de tijolos amarelos para nós. O “galpão” foi longe. Fomos até Moscou e pelo menos 30 países. Aonde se vai, o que se nota é que a força do teatro brasileiro não está exatamente no diretor, mas na forma de contar a história de todo mundo. Para muitos, isso é um método. Mas é difícil deixar claro que não o é. O método tem determinadas regras que quase chegam a ser canônicas. E nós não temos isso. Somos absolutamente macunaímicos. Essa é a nossa alma. E é dessa liberdade que a gente faz o nosso jeitinho de fazer teatro.

Por Gustav Cervinka

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