Dia a dia

Dia dos Bombeiros: tragédias em Manaus revelam heróis da vida real

Denis passou dois anos no serviço operacional, onde vivenciou muitas histórias – fotos:arquivo/pessoal

“Quando entramos em um incêndio, nunca sabemos se vamos sair, mas entramos com o dever de salvar vidas”. Com essas palavras, o soldado, Dênis Wilson Lira Ferreira, do Corpo de Bombeiros do Amazonas define a profissão. Após salvar duas jovens em um incêndio, em um dia de folga, foi condecorado com uma medalha por ato de bravura. Essa é uma das histórias que o Portal EM TEMPO vai contar sobre os bombeiros, na data dedicada a eles, homenagens aos profissionais que correm contra o tempo para salvar vidas.

Há 12 anos como bombeiro militar, o soldado Dênis contou o fato ocorrido no dia 11 de agosto de 2015. “Estava voltando do clube do Asa com a minha família e, quando cheguei perto da minha casa, no conjunto Ayapuá, na Compensa, meu pai me disse que estava ocorrendo um incêndio no bloco G1. Nós morávamos no bloco E, portanto era bem perto. Peguei minha farda e corri para o local. Quando cheguei, avistei uma moça na janela gritando por socorro, pois a janela era gradeada e não tinha como ela sair. Havia muita fumaça. Populares levaram extintores de carro, mas as chamas eram muito altas. Quando o fogo diminuiu, eu entrei no apartamento”, relembra Dênis.

Movido pela coragem, o bombeiro não se importou com o perigo e entrou no apto sem nenhum equipamento de segurança. O ato lhe rendeu uma medalha por bravura.

“Como os apartamentos são iguais, já conhecia os cômodos e entrei no imóvel. Assim que entrei, encontrei outra moça no banheiro. Elas estavam bastante assustadas. Tentei acalmá-las e protegê-las com um cobertor. Mandei que elas segurassem firmes na minha mão e, no meu sinal, corressem pelo corredor que dava acesso à porta de saída. Fui condecorado pelo ato de bravura, por ter entrado no incêndio sem equipamento de segurança e em um dia de folga, porém acredito que foi uma obrigação”, contou o soldado.

Outra história que marcou a vida do militar, durante os dois anos no serviço operacional, foi um incêndio no bairro Santo Agostinho, onde, duas crianças morreram.

O soldado recebeu uma medalha por ato de bravura por ter entrado em um Incêndio sem equipamento de segurança

“Quando a gente encontrou os corpos, as crianças estavam abraçadas, como se a mais velha estivesse protegendo a mais nova. Toda vez que saio para o trabalho e olho para as minhas filhas, que hoje têm a mesma idade que aquelas crianças, lembro daquela cena. Quando acontece esses casos sempre fica aquela sensação que a gente poderia ter feito mais.  Fico me perguntado, e se a gente tivesse acelerado mais a viatura? Tudo isso passa pela nossa cabeça, mas depois analisando direito, percebo que se tivéssemos passado no sinal vermelho, poderíamos causar um acidente e fazer outras vítimas. Sempre tomamos essas histórias como lição ”.

“Umas das melhores sensações que temos é quando uma pessoa te olha com um olhar de gratidão por ter salvado a vida dela”

Quando criança, Dênis jamais imaginou que seria um bombeiro.

“Nunca pensei em ser bombeiro, não foi um sonho de criança. Eu sonhava em ser advogado ou médico. Mas, com o passar do tempo, com novas experiências, passei a amar o que faço. Umas das melhores sensações que temos é quando uma pessoa nos olha com gratidão, após ter a vida salva. O salário maior está ali”, falou emocionado.

Em seus 12 anos de corporação, tenente Janderson contou que já teve muitas experiências

Também com 12 anos de corporação, o tenente Janderson Loureiro Lopes, de 31 anos, relembrou algumas ocorrências que marcaram sua vida na corporação. Umas delas foi o  atendimento no trágico acidente, entre uma caçamba e um micro-ônibus, que deixou 15 pessoas mortas no dia 28 de março de 2014, na avenida Djalma Batista.

“Foi muito impactante aquela cena. Havia uma mulher grávida e uma outra mulher abraçada a uma criança. Lembro bem que um colega, que estava em cima da viatura, olhou para o meio das ferragens e avistou uma criança. Ele me olhou triste e avisou que havia uma criança entre as vítimas. Apesar de sabermos que sempre vamos vivenciar várias situações no nosso dia-a-dia, essa foi uma das que nunca vou esquecer”, disse o bombeiro.

Janderson Lopes também relembrou do salvamento de um cachorro, no bairro Cidade Nova. A ocorrência, segundo ele, é simples, mas o que o marcou foi o fato do animal o lamber bastante, como se estivesse agradecido pelo salvamento.

Em uma outra ocasião, ocorreu um incêndio em uma residência no bairro Flores, na Zona Centro-Sul, onde um idoso estava preso na residência.

“Quando nos acionaram, fomos informados que não havia vítimas no local, porém quando chegamos, um rapaz falou que havia ouvido uma voz dentro da casa. Eu percorri toda a lateral da casa, até que ouvi um pedido de socorro bem baixinho. Olhei por uma janela e vi o idoso, de mais ou menos 70 anos, dentro do imóvel. Ele já estava bastante fraco. Voltei até a frente do imóvel, chamei os colegas e entramos no local. Quando o pegamos pelo braço, ele desmaiou. Ele foi levado para o hospital, mas, infelizmente, morreu uma semana depois. Nem sempre o final é feliz”, lamentou.

“Salvar vidas é o nosso objetivo, é o nosso trabalho, mas muita das vezes não acontece como esperamos”

Janderson conta que a cada dia vive uma experiência diferente

De acordo com comandante do Corpo de Bombeiros do Amazonas, coronel Fernando Paiva Pires Junior, o bombeiro tem uma importância singular na sociedade, pois arrisca a própria vida para salvar de outras pessoas.

“O nosso serviço de bombeiro é para servir e isso nos aproxima das pessoas. Tratamos a pessoa que está sendo atendida, da forma que gostaríamos de ser tratados”, disse o comandante, que conta com 30 anos de corporação. Nesse período, ele já vivenciou muitas histórias, uma delas o marcou profundamente. Um acidente de trânsito na avenida Efigênio Sales.

“Uma carreta caiu sobre um carro. Precisávamos retirar o rapaz que estava embaixo da carreta. Durante o socorro, mesmo machucado, ele me deu um beijo no rosto. Fiquei sem reação, pensei na hora “meu Deus ele está todo machucado, traumatizado e mesmo assim me agradeceu”. Eu recebi a gratidão, por meio daquele beijo”, relatou.

O coronel também relembrou uma história, que teve um final triste, que aconteceu com um colega de trabalho, que teve o filho morto em um incêndio

“Ele foi encontrado no banheiro da casa. O chuveiro estava ligado, como se esperasse a gente chegar. Hoje a ordem é correr, ser o mais rápido, prestar um serviço de excelência. Esse comandante, pai do garoto, sempre fala para a gente não deve deixar de atender uma ocorrência, não deixar nada impedir que o socorro chegue rápido para quem está necessitado. Ele sempre lembra que a vítima pode ser alguém de nosso próprio sangue”.

Segundo o comandante Fernando Pires. os bombeiro tem uma grande importância para a sociedade

Estrutura

Apesar de toda força de vontade empregada em cada missão, a corporação passa por necessidades, uma delas é o efetivo. Atualmente, 700 homens atendem a todo o Estado, com dimensões intercontinentais. A corporação possui 11 postos de atendimento na capital e seis no interior, são eles: Manacapuru, Tefé, Tabatinga, Parintins, Rio Preto da Eva e Iranduba.

Mara Magalhães
EM TEMPO

Comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais lidas

Subir