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Cuidado com os aliados

Escritor e empresário

Luiz Lauschner
Escritor
e empresário


O julgamento público, pela Câmara dos Deputados realizado no domingo dia 17 de abril de 2016 trouxe alguns fatos bem folclóricos. Afora a raridade de a Câmara funcionar em dia de domingo, o que mais chamou a atenção do Brasil todo que assistia ao vivo pela televisão foram as “justificativas” apresentadas pelos deputados para seus votos.

Houve patriotadas, declarações de amor aos filhos, homenagens aos pais, agressões verbais, ironias e até orações. O ridículo ficou por conta de má educação demonstrada por aqueles que deveriam primar por ela. O povo brasileiro paga caríssimo pelas poltronas e pelo sistema de som da casa. Contudo, nenhum deputado ficou em seu lugar, preferindo os holofotes do voto em pé, ao lado de torcedores com cartazes de diversos tipos. Foi a parte feia do processo.

Porém, o que chamou a atenção foi a ridícula “dedicatória” feita pelo deputado Jair Bolsonaro ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. O deputado, conhecido defensor do período militar, poderia muito bem ter poupado ao povo a homenagem a quem representava os porões daquele período. A presidente Dilma foi derrotada, como o queria o povo brasileiro. Contudo, poucos, muito poucos estão pedindo a volta dos militares, assim como menos ainda querem o comunismo. Homenagear um torturador, embora alguns afirmem que a história o tenha injustiçado, é uma tentativa tola de querer aproximar aos que combatem a corrupção com a aprovação dos métodos rejeitados pela história, pelo bom senso e pelo espírito de humanidade.

O candidato atrai eleitores com os quais tem linhas divergentes. Da mesma forma, o eleitor pode ser iludido com a maneira como um candidato é apresentado e frustrar-se mais adiante. Fazer uma aliança com pessoas que num determinado momento têm um objetivo comum pode se tornar perigoso no futuro. O deputado Jair Bolsonaro só tem mesmo a virtude de deixar que todos saibam como ele pensa. A maneira como “justificou” seu voto fez com que até esta virtude se transformasse em vilania. Também merecem repúdio os que exaltaram Marighela e Fidel Castro. Continua sendo uma discrepância o governo ter criado uma Comissão da “Verdade”, para condenar militares por crimes cometidos há mais de trinta anos no Brasil e, lá fora, ainda nos dias atuais apoie governos muito piores que os que ocuparam o Brasil por 21 longos anos.

O amadurecimento da democracia no Brasil está acontecendo e deu demonstrações disso neste domingo. Nem deputados, nem o povo que assistiu criou qualquer admiração extra pelo comandante do impeachment, o também corrupto Eduardo Cunha. Todos têm consciência que este é apenas o processo inicial e que Renan Calheiros, presidente do Senado, Michel Temer, vice presidente e o próprio Cunha precisam ser defenestrados. Caminhar lado a lado com esses por um curto trecho não pode e não deve significar aliança com eles. Embora o governo tenha apresentado desta forma, o povo soube mostrar que não foi nada disso.

Se é verdade que a Presidente da República foi eleita com cinquenta e quatro milhões de votos, embora hoje se comprove que muitos deles conseguidos com dinheiro roubado, também é verdade que a soma dos votos dos deputados que a estão depondo não fica muito aquém disso. Alianças de dois anos atrás estão desmoronando. Novas serão criadas. Precisam ser permanentes? Depende do afinamento daqui pra frente. A democracia está amadurecendo. Quem não se deu conta disso, pode ter uma trajetória política curta.

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