Política

Crise política afeta estado de espírito dos brasileiros

Dorval disse que a crise econômica é um dos fatores que mais afetam o povo – foto: divulgação

Dorval disse que a crise econômica é um dos fatores que mais afetam o povo – foto: divulgação

A crise política, que neste domingo chega ao clímax com a votação do relatório que recomenda o impeachment da presidente Dilma Rousseff, no plenário da Câmara dos Deputados, tende a afetar psicologicamente os brasileiros. A psicoterapeuta Hilda Medeiros define o comportamento como “crash” e “coach”. Na tradução literal do inglês, batida e treinador, respectivamente. Na psicologia, “crash” é confronto, rancor, ódio. “Coach” é preparação, treino, racionalidade.

Na política, diz Hilda Medeiros, há correntes de pensamento e uma atmosfera em que as pessoas são obrigadas a tomar um partido. “Nossos estados emocional e físico funcionam como filtros da realidade. Esses filtros determinam o modo como percebemos a realidade e nos mostramos para o mundo”, diz a psicoterapeuta. Nesse sentido, acrescenta, o momento político afeta as pessoas. Umas tendem a ir para o confronto na defesa de seus pontos de vistas, seja contra ou a favor do governo. Outras preferem avaliar a situação sem entrar no mérito do certo ou errado.

A questão do impeachment, diz Hilda, aflora os sentimentos de “crash”. “Quando nos encontramos em estado ‘crash’, sob tensão, acessamos territórios emocionais que nos limitam, como ódios, rancores e medos. É possível afirmar que a raiva, o medo e a desconexão de nós mesmos são verdadeiros venenos para um sistema integrado. Nesse estado de tensão, os filtros da percepção congelam e passamos a reproduzir experiências passadas, como máquinas desconectadas de nossa essência humana. Contraímo-nos e nos tornamos reativos, fechamos as portas que ampliam novas possibilidades e deixamos de perceber as alternativas”, explica.

Nesse estado de espírito, as outras pessoas se tornam extensão de nossas próprias inseguranças. “Espelhamos nos outros as nossas próprias frustrações. Com nossos filtros congelados, nos tornamos distantes de nós mesmos porque a energia deixa de fluir e consequentemente não encontramos respostas além da agressividade para lidar com as diferenças”, comentou. “É preciso lembrar que a vida é criada por opostos, tristeza e alegria, raiva e paz, medo e confiança, desconexão e centramento, e que o oposto do estado ‘crash’ é o ‘coach’”, disse.

Hilda Medeiros esclarece que grande diferença entre o estado “crash” e o estado “coach” é que no primeiro agimos por nossos instintos mais baixos, falta a humanidade, mesmo que não tenhamos consciência disso. “Em contrapartida, no estado ‘coach’ somos capazes de centrar, de aquietar a nossa mente e respirar, permitindo que a energia transite pelo corpo. Em contato com nossa essência somos capazes de acolher os obstáculos e transformar em recursos”.

Hilda cita o filósofo Sócrates para ensinar a evitar conflitos políticos radicais. “Sócrates nos ensinou a arte da pergunta para, ao invés de tomar partido apaixonadamente, envolvido apenas por emoções, em sua sabedoria, se dissociava do problema e refutava seu interlocutor sobre os prós e contras da questão proposta. O objetivo era encontrar a verdade na sua mais autêntica forma”, disse a psicoterapeuta.

Prós, contras e neutros

O vendedor Diego Ajemir, 19, concorda com a tese. “A situação política do Brasil afeta principalmente o emocional das pessoas. Elas estão cada vez mais impacientes e intolerantes. É muito comum ver intrigas pelas redes sociais; fico abismado”, declarou. “Tenho amigos que desfizeram amizades por conta de política, o que eu considero um absurdo. O que vale é a democracia e o voto da maioria. O problema é que a situação do país ficou tão complicada que é impossível ser imparcial. Eu por exemplo, sou contra o impeachment. Acho uma falta de respeito o que fazem com a presidente Dilma. Imagino a pressão que ela sente”, lamentou.

A estudante Maria da Luz, 19, discorda. Ela considera que se o impeachment for aprovado, o país pode ter mudanças positivas. “ Chega de PT no governo. Eu respeito quem votou na Dilma, mas penso que com ela no poder as coisas só tendem a piorar. Não preciso enumerar todos os problemas que enfrentamos, basta observar o número de pessoas que estão desempregadas, é alarmante. Estou empregada há uma semana, e pelos menos 20 pessoas vieram entregar currículo aqui no restaurante, fiquei assustada”, declarou.

Para o comerciante Dorval Borges da Silva, 53, que trabalha há 20 anos como camelô no centro de Manaus, a corrupção não é um problema atual e que o país sempre sofreu frustrações na política. “A corrupção está às claras. Hoje, o que se ouve falar é de bilhões desviados dos cofres públicos. Sou a favor do impeachment e apesar de não ter mais confiança nos políticos, acredito que podemos ao menos sair do buraco e tentar uma nova história. Não será fácil mudar de uma hora para outra, mas com certeza teremos a oportunidade de recomeçar. Continuar com o PT no governo é pedir a falência do Brasil”, opinou.

Dorval disse que a crise econômica é um dos fatores que mais afetam o povo. “A taxa de desemprego aumentou muito, e o comércio está se acabando a cada dia. Eu trabalho há 20 anos na rua Marcilio Dias, e nunca vi um movimento tão fraco nas vendas, como tenho presenciando nos últimos 2 anos. A rua agora é vazia, não se ver mais clientes nas lojas. Até nas épocas festivas o movimento não é mais o mesmo”, lamentou.

Há quem prefira ficar neutro sobre o tema delicado. Quanto menos souber, melhor. É o caso do comerciante Inocêncio Rosa, 63. “Eu acho uma perda de tempo essa votação. Se a Dilma está no poder é porque foi eleita pelo povo. O que vai adiantar se ela sair”?, questionou. “Se o povo quer um novo governante, deve esperar as eleições de 2018. Ela foi eleita com o voto da maioria e isso é democracia. Falta 2 anos para terminar o mandato dela, o que seria melhorado nesse tempo caso ela saia? Nada!”, disse.

“Eu não sou contra nem a favor do impeachment. Tanto faz se a presidente ficar ou sair, não ligo para política”, disse a vendedora ambulante Silvana Martins, 26. “Eu sei que as coisas não vão bem no país, mas nunca foram bem. Os políticos só lembram do povo em época de eleição. Não estão nem aí para os problemas do país. Por isso sou imparcial, não há mais esperança. Já fomos tão enganados”, criticou.

Por Bruna Amaral e Cléber Oliveira

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