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Com mudança em vestibulares, escolas investem na mistura de conteúdo

Maíra Romero Machado, 17, aluna do terceiro ano do ensino médio, em São Paulo - foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Maíra Romero Machado, 17, aluna do terceiro ano do ensino médio, em São Paulo – foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Motivados por mudanças nos vestibulares e por correntes pedagógicas modernas, escolas tradicionais da cidade de São Paulo têm atenuado a divisão entre ciências exatas, biológicas e humanas, com foco maior no conteúdo interdisciplinar.

Além da crescente importância do Enem, que une diferentes áreas em uma mesma questão, a Fuvest também tem aumentado a quantidade de itens interdisciplinares e dado menos peso a provas específicas, que hoje valem 25% da nota – antes, chegavam a valer quase 40%.

“O que as escolas buscam é preparar os alunos para o Enem. A tendência é levar para o currículo da escola projetos que integrem as habilidades emocionais, sociais e éticas”, afirma Sandra Garcia, coordenadora da empresa Mind Lab, que presta consultoria a mais de 800 escolas em projetos desse tipo.

No colégio Bandeirantes, na zona sul de São Paulo, a adaptação começa a ocorrer, e já se fala no fim da divisão das turmas por área (exatas, humanas e biológicas), que existe desde os anos 1980.

A instituição, porém, não se pronuncia a respeito da possível mudança. A professora Cristiana Mattos de Assumpção, que coordena a reforma curricular no colégio, limitou-se a dizer que os planos de fomentar a interdisciplinaridade envolvem, por exemplo, unir laboratórios de biologia, química e física.

Rótulos

Uma das críticas à divisão dos alunos por área é a possibilidade de gerar rótulos entre os estudantes. “Pela roupa das pessoas você já percebe a separação”, diz Maíra Romero Machado, 17, aluna do terceiro ano do Bandeirantes. Ela escolheu a área de exatas no segundo ano, mas mudou de ideia e foi transferida para humanas.

A estudante sente que a divisão acabou atrapalhando sua formação, já que, em exatas, ela não podia estudar matérias das ciências humanas a fundo. Hoje, ela quer cursar duas graduações: engenharia e, em humanas, cinema ou teatro.

No ensino médio do Objetivo, as turmas são unidas há mais de dez anos. “[Dividir] seria péssimo”, diz Lucas Barros, 17, aluno do terceiro ano da escola. Dividido entre diferentes áreas, ele cita matemática, geografia e línguas como campos de interesse.

Para Vera Lúcia da Costa Antunes, coordenadora geral do Objetivo, a separação por áreas era prejudicial. “Acabou a divisão. Sou coordenadora de geografia e faço provas junto com o professor de física”, exemplifica.

Os colégios jesuítas do Brasil -entre eles, o São Luís, na região da avenida Paulista- também elaboram um projeto educativo que fomenta a interdisciplinaridade.

Na escola Villare, em São Caetano do Sul, foram criadas duas disciplinas que vão ao encontro do conteúdo do Enem: atualidades e responsabilidade social.

Na primeira, os alunos aprendem a analisar criticamente o noticiário; na segunda, elaboram proposta para resolver um problema social, exatamente como pede a redação do Enem – com o diferencial de executarem os projetos ao longo do ano.

Para Regina Denigres, professora da faculdade de educação da PUC, só criar novas disciplinas não resolve a falta de integração das áreas no currículo regular. “Na vida real, quando você resolve um problema, as disciplinas não são segmentadas. Eu não tenho visto uma atitude mais radical nesse sentido [interdisciplinar] nas escolas, de modo geral”, afirma.

Paulo Moraes, diretor de ensino do Anglo, diz que não há formação adequada dos professores para uma reforma desse tipo. “Imagina se resolvo unir química e física. Quem vai dar essas aulas?”

Por Folhapress

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