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Com dificuldades, produção rural do AM investe na terra de várzea

Jacó, que até o final dos anos 1990 trabalhava com o pai e seus irmãos na colheita de malva e passou a focar no milho nos anos 2000 - foto: Ricardo Oliveira

Jacó, que até o final dos anos 1990 trabalhava com o pai e seus irmãos na colheita de malva e passou a focar no milho nos anos 2000 – foto: Ricardo Oliveira

A força do produtor rural amazonense encontra na terra de várzea, hoje, um aliado de risco para a produção de alimentos, que poderiam chegar mais barato para a mesa do consumidor amazonense. Com as mudanças climáticas, que nos últimos anos influenciam no ciclo das águas, os produtores afirmam que o tempo para produção começou a reduzir.

Mesmo com as dificuldades, os mais corajosos tentam manter a agricultura de subsistência com excedente para comercializar para a capital, que vive onda de desabastecimento nos supermercados.

Morador da comunidade Monte das Oliveiras, na região do lago do Curuçá, no município do Careiro da Várzea (a 25 quilômetros de Manaus), o produtor rural Jacó Osório Pinheiro, 36, vive um bom momento com os seus 5 hectares de plantação de milho, que têm a promessa de colher, até o final da safra, aproximadamente, 10 toneladas. Mas, a expectativa se dá diante da incerteza sobre a subida das águas do rio Solimões.

Jacó, que até o final dos anos 1990 trabalhava com o pai e seus irmãos na colheita de malva e passou a focar no milho nos anos 2000, lembra que o ciclo das águas permitia plantar e colher milho num período de sete a oito meses.

Mas, no ano passado, com a demora da vazante, ele só pôde trabalhar num período de quase seis meses. “Neste ano, as águas estão no nível baixo para gente e bom para plantação. Espero que segure até os sete meses”, diz.

Em setembro do ano passado, quando começou a colher o primeiro plantio de milho, Jacó afirma que vendia a saca de milho verde a R$ 30 para o atravessador, que passa na comunidade pelo menos duas vezes na semana. Atualmente, o mesmo atravessador, paga R$ 15 pela saca.

Contrato

A maior segurança na produção do milho verde, segundo Jacó, é quando a comunidade consegue fechar contrato com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ele conta que, recentemente, a comunidade levou para Manaus 5 toneladas de milho para vender para o órgão federal, que paga R$ 1,20 pelo quilo do produto, conforme a tabela nacional de preços. “Eles depositam o pagamento na nossa conta 15 dias depois, mas é seguro e é um preço bom para gente”, avalia.

Pai de Jacó, o produtor rural Manoel Rodrigues Pinheiro, 75, natural da região do Purus, chegou ao Careiro da Várzea há 50 anos. Fugido da escravidão dos seringais, ele encontrou na várzea os benefícios de trabalhar com a malva, até o final dos anos 1990. “Naquela época, a malva era boa de trabalhar, porque o preço era bom. Era um produto que, se não vendesse num ano, dava para guardar para a outro. Mas, era tão bom de vender que não fica nada”, lembra.

Seu Manoel conta que no tempo da malva ele e seus filhos plantavam milho, mas apenas para consumo da família. Quando o preço da fibra caiu, o milho estava valorizado e nele viram a oportunidade de mudar o foco produtivo. Mas na região não há mecanização para plantação do milho, nem para a colheita, que é toda feita de artesanal. “A mecanização é o paneiro e a força dos homens”, diz.

Hoje aposentado, o produtor dividiu a terra entre os filhos, que, além do milho, produzem outros produtos como pimenta de cheiro, cheir-verde, cebolinha. Seu Manoel afirma que atualmente consegue vender pelo menos duas sacas de pimenta de cheiro para o atravessador, na semana.

Apensar do bom momento que agrade o produtor, a mudança do movimento das águas também o preocupa. “No ano passado, no mês de abril, a nossa terra estava alagada. Neste ano ainda não alagou”, aponta.

Produtor de repolho, couve, berinjela e maracujá, Francisco de Assis Ferreira da Silva, 46, também comemora a boa colheita. Nascido na região do Curari, ele se mudou para o Curuçá, nos anos 1990, onde encontrou uma várzea boa viver com a sua família.

No entanto, ele reclama do atravessador, que hoje paga aos produtores R$ 1 pela cabeça do repolho e vende de R$ 3 a R$ 4, em Manaus.

Por Emerson Quaresma

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