Cultura

Cantora amazonense Karine Aguiar promete novo disco em quatro idiomas

A gravação deve ser inteiramente no exterior, mas a pré-produção já é realizada em 'ponte aérea' - foto: divulgação

A gravação deve ser inteiramente no exterior, mas a pré-produção já é realizada em ‘ponte aérea’ – foto: divulgação

Em fase de pré-produção, a cantora e também intérprete amazonense Karine Aguiar lançará, em breve, um novo álbum. Ela garante que o trabalho será tão ousado quanto seu primeiro disco (“Arraial do Mundo”, lançado em 2012).


Karine ainda promete músicas em quatro idiomas, incluindo versões para composições de Cileno e que fizeram sucesso com o grupo Carrapicho. “Será minha estreia como compositora”, revelou.

A gravação deve ser inteiramente no exterior, mas a pré-produção já é realizada em “ponte aérea”. Faz um ano que Karine deu início às pesquisas para o novo álbum, estudos reforçados com o curso de mestrado onde ela é aluna e tem contato como grandes autores que se dedicam ou se dedicaram a estudar a Amazônia.

Um grande salto na carreira dela ocorreu em 2011, quando participava de um palco alternativo do Festival de Jazz cantando alguns standards de jazz e da bossa nova. Na ocasião, o pianista de renome internacional Vana Gierigdo apareceu e prestigiou o show. Ao final, ele a cumprimentou e, durante a conversa, perguntou se ela tinha interesse de gravar em Nova Iorque.

Da experiência, Karine se aproximou de outros renomados profissionais e com eles a artista está em contato para participarem desse novo projeto. Nessa entrevista, confira todos os passos da atual fase de sua carreira.

EM TEMPO – Você deu início à pré-produção de seu novo álbum. O que o público pode esperar desse novo trabalho?

KARINE AGUIAR – Estamos  há um ano fazendo pesquisas e estudando o conceito deste novo disco. Será um disco que seguirá uma linha semelhante à do “Arraial”, ainda apostando na proposta do jungle jazz, combinando os gêneros musicais amazônicos a uma sonoridade jazzística. Este disco terá um repertório em quatro idiomas e será também meu disco de estreia enquanto compositora. Escrevi no começo deste ano uma versão em inglês para a música “Lusis”, de Cileno, e outra versão em espanhol para a música “Fica Comigo”, grande sucesso do Carrapicho e que foi gravada no Arraial em uma roupagem voltada pro Marabaixo e pro Latin Jazz. Tudo ainda está em processo de definição. A cobrança de nós mesmos para este segundo trabalho tem sido muito grande. Queremos oferecer o melhor de nós.

ET – Além do jazz e gêneros amazônicos, o que mais devem ser os ingredientes desse novo álbum? A obra já tem nome?

KA – Por enquanto, o disco ainda não tem nome definido. Nós geralmente só pensamos nisso ao final do processo. Mas, o que podemos adiantar é que iremos investir na inserção de novos gêneros musicais amazônicos como a guitarrada, a ciranda de Manacapuru, o “boi de rua” e uma manifestação que encontramos no interior de Maués, a Tapiraiauara. Tudo isso combinado ao jazz.  Também iremos apostar em alguns momentos na sonoridade da música latina, como o bolero, que amo! A rumba, o zouk e o cha-cha-cha. A ideia central sempre será ter uma cara universal e ao mesmo tempo dizer a ouvintes: “Sou cabocla, sou Amazônia”.

ET – O pianista Vana Gierig vai participar dessa obra? Na sua carreira você conheceu outros profissionais renomados. Quais deles irão fazer parte dessa produção?

KA – Estamos ainda ajustando a questão de agenda com o Vana. Ele está com uma turnê muito extensa pelo Japão desde que tocamos juntos pela última vez, nos Estados Unidos em abril deste ano. Mas, podemos adiantar que o Matthew Parrish, baixista norte-americano, que gravou o “Arraial do Mundo” e com quem temos trabalhado no projeto Brazilian Jazz Extravaganza, já tem participação confirmada no CD e irá participar diretamente da pré-produção conosco.

ET – O novo álbum deve ser gravado no Amazonas? Ou a intenção é gravá-lo no exterior?

KA – O disco deverá ser gravado inteiramente no exterior, mas a pré-produção acontece em “ponte aérea”. Gravamos as prévias de cada música aqui, com nossas ideias para cada arranjo e enviamos para os Estados Unidos para a finalização dos arranjos. Matthew Parrish deverá participar arduamente conosco deste processo de pré-produção, da mesma forma que o Rômulo Marques também irá dar suas sugestões de Paris para as músicas dele que irei gravar – “Cupido”, “Vento que embala a bananeira” e “Deux Cerisis à L’oreille”.

ET – Quais compositores, além dos que você revelou, deseja convidar para o novo álbum?
KA – Além dos compositores que já citei, como o Cileno e o Rômulo, com seus parceiros na França, o maestro Christian Gentet e o Marcelo Godoy, iremos também regravar canções do maestro Adelson Santos, um amazonense que possui obra musical de extrema significância para este Estado. Estamos também em processo de análise de canções de outro amazonense, o Pedro Amorim, que viveu em Manaus até o final da década de 1980 e que se mudou para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceu até hoje.

ET – De onde você espera inspiração para essa nova fase?

KA – A nossa inspiração primeira sempre vem da natureza, das viagens que fazemos de barco pelo interior em nossas pesquisas. Eu e o Ygor Saunier, que é pesquisador em etnomusicologia e estudioso da rítmica dos gêneros musicais amazônicos. Ele está prestes a lançar seu primeiro livro, “Tambores da Amazônia”, com patrocínio do Banco da Amazônia. Temos ouvido também muito jazz tradicional, os trabalhos de Nat King Cole, Percy Mayfield, a era das big bands com Ella Fitzgerald.

ET – Como você tem se preparado e vai se preparar para seguir com o mesmo nível do álbum “Arraial do Mundo”?

KA – Temos feito muita pesquisa há um ano.  Por ocasião de eu estar também em um programa de mestrado voltado à cultura amazônica e à sustentabilidade, isso tem me dado a oportunidade de ler clássicos de autores amazônicos como Samuel Benchimol – “Formação cultural e social da Amazônia” – e Neide Gondim – “Invenção da Amazônia”. Tenho tido uma experiência muito rica como orientanda de dois grandes cientistas e profundos conhecedores da nossa cultura, como o professor doutor Antônio Carlos Witkoski e a professora doutora Therezinha Fraxe, que têm me direcionado para um “empoderamento” maior destes conhecimentos acerca da cultura amazônica. Esperamos que este disco possa se traduzir também como um instrumento de identificação para o povo amazonense, que é cosmopolita sim. Manaus sempre esteve mais em contato com o resto do mundo do que com o próprio Brasil desde a sua gênese. É também com esses estudos de caráter social, histórico e antropológico que estamos construindo, pouco a pouco, o conceito deste disco.

ET – Você está convicta de que será um álbum de sucesso ainda maior?

KA – Convictos do sucesso nós nunca estaremos (risos). Temos que continuar trabalhando duro, como temos feito desde 2012 quando gravamos o “Arraial”. Agora temos uma equipe trabalhando conosco sempre, seja na elaboração de projetos, seja nas nossas redes sociais e na minha consultoria de imagem e estilo. Formamos um time com pessoas que se identificam com nosso trabalho e com as quais nós também nos identificamos, e essas pessoas torcem e trabalham muito junto com a gente para que o trabalho dê certo.

ET – E além do novo disco, como está sua carreira? A que você tem se dedicado?

KA – Tenho me dedicado à minha preparação física, psicológica e intelectual para a produção deste segundo trabalho. Este tem sido um ano que decidimos nos direcionar para a realização de outro antigo projeto que é a publicação do livro do Ygor Saunier, resultante de uma pesquisa que já dura quatro anos, sobre os ritmos amazônicos. O livro será lançado no segundo semestre. Já temos críticas excelentes de grandes nomes da bateria brasileira no mundo, como o Edu Ribeiro (vencedor do Grammy Latino em 2014) e Maurício Zottarelli (baterista brasileiro radicado em Nova Iorque), Celso de Almeida (baterista de artistas da MPB como Gal Costa, Gilberto Gil, Fafá de Belém etc.) e do Rafael Barata (baterista brasileiro que excursiona pelo mundo com a pianista Eliane Elias), que tiveram acesso previamente ao material e ficaram muito satisfeitos e encantados com o resultado da pesquisa de Ygor.

Por Cleidimar Pedroso (especial Jornal EM TEMPO)

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