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Calor e queimadas transformam Amazonas em um caldeirão de fumaça

Entre os transtornos causados pela fumaça estão a baixa visibilidade e doenças respiratórias- foto: reprodução/whatsapp

Entre os transtornos causados pela fumaça estão a baixa visibilidade e doenças respiratórias- foto: reprodução/whatsapp

Clima seco, altas temperaturas, queimadas, desflorestamento e incêndios criminosos, são alguns dos ingredientes que transformaram Manaus em um grande caldeirão de calor e fumaça, dificultando a respiração, prejudicando a visibilidade e causando transtorno no deslocamento de aeronaves e embarcações.

De acordo com o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Antônio Ocimar Manzi, doutor em física da atmosfera, as queimadas no entorno da capital amazonense têm sido facilitadas pelo tempo seco e quente nesta época do ano. “Essa é uma situação que já aconteceu antes. Como à noite a superfície emite mais radiação do que recebe da atmosfera, então ela se resfria de baixo para cima. Isto é, o ar mais frio e denso fica embaixo e o ar mais quente e menos denso fica por cima”.

Segundo ele, o processo cria uma camada de inversão térmica que dificulta o transporte de ar, fumaça e poluição da superfície para a atmosfera mais alta. Nessas condições, a fumaça produzida pelas queimadas na região fica presa na parte de baixo da atmosfera e o vento a transporta horizontalmente trazendo para a cidade, que amanhece com a névoa de fumaça das queimadas.

Queimadas em municípios da região metropolitana contribuem para o fumaceiro na capital foto: Leitor EM TEMPO

Queimadas em municípios da região metropolitana contribuem para o fumaceiro na capital foto: Leitor EM TEMPO

“De manhã, quando os raios de sol vão chegando, eles vão esquentando a superfície e esta começa a aquecer o ar em contato com ela. Esse ar mais quente em contato com a superfície torna-se menos denso que o ar acima dele. Por ser mais leve, ele sobe e vai levando a fumaça de baixo para cima.

O ar que ocupa o lugar do ar que subiu também se aquece em contato com a superfície, se expande e sobe também. Esse processo vai criando uma camada de mistura de ar, que vai crescendo ao longo da manhã e vai diluindo a fumaça que estava concentrada perto da superfície em um volume de ar muito maior. Por isso, por volta das 11 h a fumaça já não é mais visível”, explica o especialista.

Manzi afirma que se as queimadas continuarem e os ventos noturnos forem favoráveis, outros episódios como esse acontecerão diversas vezes.

Monitoramento

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) monitora os focos de calor. Os dados são gerados por meio do monitoramento de queimadas por satélite. Entre 30 de setembro e 5 de outubro deste ano mostram 5.899 focos de queimada no Amazonas e que a cidade campeã deste índice é Careiro Castanho, enquanto que Manaus aparece na 32ª posição do histograma. Os dados podem ser consultados pelo http://www.dpi.inpe.br/proarco/bdqueimadas.

De acordo com o doutor e pesquisador do Inpe, Alberto Setzer, o órgão tem acompanhado por meio de imagens de satélites os focos de queimadas e incêndios florestais na Amazônia como parte das atividades rotineiras de monitoramento em todo o país.

Mais de 5 mil focos em setembro

O número recorde de queimadas no Estado surpreendeu a todos. Poucas pessoas imaginavam que Manaus amanheceria embaixo de uma grande nuvem de fumaça, mas é o que vem acontecendo desde o início de outubro. Segundo informações do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), em toda Amazônia Legal, composta por nove Estados, foram mais de 47 mil focos de calor existentes no mês de setembro.

Desse número, 5.882 são no Amazonas, principalmente na região sul do Estado, considerada como região mais crítica.

Segundo a assessoria de imprensa do Ipaam, uma soma de fatores causou esse fumaceiro pelo Estado. Para controlar, uma grande operação vem sendo realizada para combater as queimadas. Por intermédio do governo do Estado, foi criado o Centro Integrado de Multiagências para o Combate às Queimadas no Amazonas (Cimaam). Ele é composto pelo Ipaam, Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), Defesa Civil do Amazonas, Corpo de Bombeiros, Batalhão Ambiental e Polícia Militar.

As equipes se concentram nas áreas de Iranduba, Novo Airão e Manacapuru, onde estão concentrados os maiores índices de queimadas próximas à capital.

Mais de cem pessoas devem entrar em campo nas mais diversas frentes de trabalho para conter as queimadas existentes e também coibir novos focos. Mas para que essa ação funcione, o Ipaam pede que a sociedade colabore, não utilizando a queimada como ferramenta para eliminar o lixo ou limpar terrenos.

“A principal forma da sociedade colaborar é entender que não se pode fazer uso do fogo para incineração de lixo, seja de que natureza for, ou ainda atear fogo para limpar terrenos, seja para plantação ou desmatamento em si. Se todos compreendessem que não devemos usar o fogo com essas finalidades não teríamos esse problema.

Queimar a floresta para manejo de solo é uma prática comum e antiga para os habitantes da região. No entanto, o excesso da atividade traz grandes prejuízos ao meio ambiente”, informa a assessoria, que chamou a atenção para o fato de que a dissipação da fumaça dependerá de vários fatores, o principal seria o aumento na frequência de chuvas pelo Estado.

O Ipaam faz questão de lembrar que a conscientização deve ser estimulada por todos os moradores. Fora isso, é importante denunciar novos casos para que os órgãos responsáveis tomem as devidas providencias.

“É preciso levar essa informação adiante, e isso se chama educação ambiental. Porém, mesmo com o trabalho de combate, monitoramento, fiscalização e conscientização ambiental, ainda existem pessoas que agem em desacordo com as normas ambientais. Por isso, contamos também com a denúncia”, alerta a assessoria.

Mudanças são necessárias

O problema se agrava ainda mais no interior. Segundo o superintendente do Ibama, Mário Lúcio Reis, é necessário que também se trabalhe uma mudança de cultura nos municípios, principalmente em áreas de pecuária intensiva.

“O Careiro Castanho, seguido de Careiro da Várzea e Autazes, são os que mais representam esse número elevado de queimadas. É preciso mudar isso. O pecuarista ainda pensa que o fogo contribui para sua atividade, causando um problema de saúde pública”, assinala.

Segundo o Ipaam, as operações de fiscalização nos municípios de Humaitá, Lábrea, Manicoré e Apuí tem sido intensificadas. A ação conta com o apoio do Batalhão Ambiental, Ibama e Polícia Militar.

Calor deve continuar

Apesar de algumas chuvas esparsas nesta semana, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) afirma que as altas temperaturas na Região Amazônica devem continuar até meados de novembro e começo de dezembro em Manaus. O Inmet avalia que as chuvas fiquem abaixo do normal na capital e no interior do Estado até o final do ano.

Segundo o órgão responsável pelo monitoramento das chuvas no Estado, no mês de setembro choveu apenas 15mm, um número abaixo do considerado normal para o mês, e pode ser encarado como muito seco.

As altas temperaturas registradas no Estado têm sido ocasionadas, principalmente, pelo superaquecimento das águas do pacífico, causado pelo fenômeno conhecido como El Niño. Umas das maiores consequências do fenômeno é o aumento do clima seco na Região Norte, ocasionando o aumento na incidência de queimadas na região.

Em setembro, a capital registrou a mais alta temperatura dos últimos 90 anos, com 38,9ºC.

Por Stênio Urbano e Thiago Fernando

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