Cultura

Caetano e Gil se calam sobre política em show para 10 mil pessoas em Israel

“Viva, Tel Aviv!”, gritou Gilberto Gil, durante o show em Israel da turnê internacional ‘Dois Amigos, Um Século de Música’, que estreou em 25 de junho na Europa e celebra os 50 anos de amizade musical entre ele e Caetano Veloso. Mas, além de mais três gritos de “Canta, Tel Aviv!” durante algumas canções, nem Gil nem Caetano falaram de política (ou qualquer outro assunto) durante a apresentação, que reuniu cerca de 10 mil fãs brasileiros e israelenses na Arena Menora Mivtachim, uma das mais prestigiadas do país.

Como nos shows anteriores da turnê, os dois baianos fizeram um show acústico, sentados em bancos e com violões. Dançaram em alguns momentos, para a alegria da plateia, que ovacionou os músicos e cantou alto com eles. Com exceção de um grito de “Fora, Dilma!” e da retirada de uma mulher bêbada, que gritava da plateia, a apresentação correu calmamente.

Gil e Caetano abriram o concerto com ‘Back in Bahia’ (do disco de Gil ‘Expresso 2222’, de 1972). O repertório de 24 músicas ainda teve hinos como ‘Sampa’, ‘Terra’, ‘Drão’ e ‘Andar com Fé’. Canções emblemáticas do princípio da carreira dos dois baianos foram ovacionadas, como ‘Tropicália’ e ‘Coração Vagabundo’, bem como músicas mais recentes, como ‘Odeio Você’ (do disco ‘Cê’, de 2006, de Caetano).

Os dois voltaram para dois bis, cantando ‘Domingo no Parque’ e ‘A Luz de Tieta’.

Entre os 18 shows em 11 países da parte europeia da turnê – haverá mais dez na América Latina –, a apresentação em Tel Aviv foi a que criou mais polêmica depois que ativistas do movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel) pediram seu cancelamento. Roger Waters, ex-baixista e cantor do Pink Floyd, escreveu duas cartas aos colegas pregando o boicote cultural ao país.

Os dois músicos ignoraram os apelos e afirmaram que tocariam em Israel, onde já haviam se apresentado antes. Caetano esteve em Israel três vezes e Gil, “entre oito e nove”, como ele mesmo diz. Mas, em três dias no país, eles decidiram conversar com formadores de opinião locais para ver com os próprios olhos o que acontece na região.

Os dois se reuniram com o ex-primeiro-ministro e presidente de Israel, Shimon Peres, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, em 1994, participaram de um encontro com ONGs de direitos humanos israelenses e palestinas e visitaram uma aldeia palestina no Sul da Cisjordânia.

Na segunda-feira (27), horas antes do show, eles ainda tiveram forças para “turistar” em Jerusalém, segundo tuitou a produtora Paula Lavigne, que tem documentado os bastidores do giro nas redes sociais.

Ocupação

Os brasileiros se encontraram com músicos locais, como Idan Reichel, David Broza e Mira Awad. Com Achinoam Nini (conhecida como Noa), Gil até deu uma canja durante um jantar, quando cantaram juntos ‘A Paz’, que ela traduziu para o hebraico e costuma cantar em seus shows.

Em meio a tantos eventos, Caetano foi mais enfático em relação à sua posição quanto ao conflito entre israelenses e palestinos, pedindo, durante uma entrevista coletiva nesta segunda (27) “um basta à ocupação, à segregação e à opressão”. Se referiu à presença israelense na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental desde a Guerra dos Seis Dias (1967), considerada ilegal pelas Nações Unidas, grande parte da Comunidade Internacional e a esquerda israelense.

Mas continuou a reprovar um boicote cultural a Israel, afirmando que, no país, existem pessoas que defendem a coexistência pacífica entre judeus e árabes.

A apresentação teve os ingressos, que custavam de US$ 50 a US$ 200, esgotados rapidamente. Boa parte dos cerca de 12 mil brasileiros que vivem em Israel correram para assegurar lugares. Fãs estrangeiros da música brasileira -muito influente em Israel- também se animaram.

O movimento BDS já conseguiu que artistas como Lauryn Hill, Carlos Santana, Coldplay, Annie Lennox e Elvis Costello boicotassem Israel. Mas falhou em convencer outros, como Robbie Williams, Bon Jovi, Mariah Carey, Rihanna, Madonna, Elton John e Rod Stewart.

Alguns dos principais nomes da música nacional já tocaram em Israel nos 67 anos do país. Além dos próprios Caetano e Gil, pode-se citar Jorge Ben Jor, Gal Costa, Elba Ramalho, Maria Bethânia, Roberto Carlos, Daniela Mercury, Yamandú Costa, Armandinho e Guinga.

Por Folhapress

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