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Brasileiros na Colômbia lamentam resultado de plebiscito sobre acordo de paz

Presidente da Colômbia e líder das Farc assinam acordo de paz, em 26 de setembroAgência Lusa/EPA, Ricardo Maldonado

Presidente da Colômbia e líder das Farc assinam acordo de paz, em 26 de setembroAgência Lusa/EPA, Ricardo Maldonado

Depois de quatro anos de negociações para um acordo de paz entre o governo da Colômbia e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), os colombianos decidiram não ratificar o acordo para encerrar o conflito que já dura 52 anos no país. A Agência Brasil conversou com alguns brasileiros que moram na Colômbia para entender os impactos do resultado e as possíveis causas que levaram à vitória do Não no plebiscito, realizado no dia 2 de outubro.

O catarinense Thiago Dal-Toe, mestre em Resolução de Conflitos e Paz Internacional, mora na Colômbia há dez anos e trabalhou ativamente pela campanha do Sim no plebiscito. Ele participou da campanha promovida por entidades da sociedade civil e partidos políticos, chamada Bogopaz. Para ele, é impensável para um país latino-americano seguir em uma guerra que já resultou em mais de 200 mil mortes.

“Esse país sofre muito com o narcotráfico, que esta incluído no acordo, e com a falta de confiança do capital internacional para investir em um país em guerra. Eles perdem muito o potencial de turismo que eles têm pela guerra e muitas multinacionais deixam de investir no país por medo de sequestros ou sabotagem aos postos de trabalho”, diz o brasileiro, que já trabalhou na Organização dos Estados Americanos (OEA) e no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A carioca Simone Pitta preside a entidade Aquarela Bogotá, que presta assistência à comunidade brasileira no país, e faz doutorado em Ciências Políticas na Universidad de Los Andes. Ela diz que é muito difícil para os brasileiros entenderem o que é um país com mais de 50 anos de guerra e avalia que a vitória do Sim seria a possibilidade de iniciar uma nova ordem política, social e econômica no país.

“Por mais que a gente tenha cidades com grandes índices de violência, como o Rio de Janeiro, é diferente de um país em guerra onde você tem gerações que passaram por isso. A geração do meu marido, por exemplo, não nasceu em paz. E as implicações disso não são só econômicas. O número de vítimas que a Colômbia tem, de vários tipos de violência, é de uma dimensão que se compara a guerras de grande intensidade”, avalia a brasileira, que mora há três anos no país é casada com um colombiano.

Mesmo como residentes permanentes na Colômbia, os brasileiros não podem votar em eleições de caráter nacional, a não ser que sejam naturalizados colombianos. Eles podem participar apenas de eleições municipais no país.

O professor e tradutor paulista Nuno Alves Ferreira se mudou há dois anos para a Colômbia, para trabalhar em um projeto de ensino em escolas públicas. Ele diz que seguramente votaria no Sim, se pudesse participar do plebiscito e considera a vitória do Não negativa, especialmente pelas oportunidades econômicas que o país perde, pelos que sofreram e sofrem com a guerra e pela divisão que o país entra neste momento. “A tristeza dos que esperavam pelo Não é realmente visível e forte em toda a cidade e em muitos ambientes. A agressividade com que as pessoas têm se tratado, quando falam desse tema também tem aumentado, no meu ponto de vista”, diz.

Causas da rejeição

O ódio da população pelas Farc e a falta de clareza na divulgação dos pontos do acordo de paz foram as principais causas da vitória do Não, na avaliação da analista política brasileira Beatriz Miranda. “Há um ódio visceral contra as Farc. De geração em geração você sempre vai falar com pessoas que são vítimas dessa guerra”, lembra a mineira, que é professora da Universidade Externado de Colômbia e mora no país há 18 anos.

Para ela, faltou um diálogo mais direto com a população sobre os termos do acordo. “Eu acho que todos os colombianos querem a paz. Mas a mensagem simples, direta, objetiva, para a maioria da população sobre o que significaria esse acordo de paz ficou um pouco distante do imaginário das pessoas, e elas acreditaram que o acordo negociado entre o presidente Juan Manuel Santos e as Farc cedeu demasiado”, explica a professora.

Outra questão que influenciou na vitória do Não, segundo Miranda, foi a cerimônia de assinatura do acordo de paz, realizada em Cartagena das Índias no final de setembro, antes mesmo da realização do plebiscito. Segundo ela, algumas pessoas interpretaram o gesto como uma vitória antecipada do Sim. “Muitas pessoas se irritaram muito com a cerimônia feita anterior ao plebiscito. As pessoas acharam que isso foi um ufanismo do presidente Santos, considerando a vitória um fato, independentemente de a população ter votado ou não”, disse.

Para o mestre em Resolução de Conflitos e Paz Internacional, Thiago Dal-Toa, a campanha do Não venceu por causa da estratégia de desinformação adotada na campanha. “Eles escolheram não discutir o acordo e fazer uma campanha com uma mistura de medo e raiva na população inventando possíveis consequências do acordo”, disse. Segundo Dal-Toe, a estratégia com as classes baixa foi de dizer que eles perderiam os benefícios sociais e com a classe média foi explorar uma possível impunidade gerada pelo acordo.

A presidente da Aquarela Bogotá, Simone Pitta, cita outro motivo para a vitória do Não: o medo dos colombianos da ascensão de uma esquerda formal no país. “Um dos pontos do acordo era a participação política das Farc e eles fariam a transição de um movimento armado para um grupo político. E a esquerda aqui tem uma incidência muito alta de violência política”, diz, lembrando que a direita tem muita força no país.

O professor Nuno Alves Ferreira considera que a campanha do Não foi extremamente violenta e desinformadora. “Pelas ruas você ouvia gente falando dos maiores absurdos: desde implantação do socialismo, de que o Timochenko [o líder das Farc, Rodrigo Londoño] seria eleito presidente, que as Farc iria liderar o Congresso Nacional, que Deus não aprovava o acordo, que iria se implantar a ideologia de gênero. Ou seja, a vasta desinformação sobre os termos do acordo contribuíram de fato pra derrota do Sim”, afirma.

Outro fator que contribuiu para o resultado do plebiscito foi a falta de interesse dos cidadão, na avaliação de Ferreira. “Eu sempre perguntava para as pessoas na rua se elas iam votar, e grande parte simplesmente dava de ombros ou dizia que concordava [com o acordo] mas que não ia votar, então tanto faz. Os meus conhecidos mais politizados já tinham argumentos seja sim ou seja não, mas também não posso dizer com certeza se todos foram às urnas”, diz, lembrando outros motivos como o furacão na costa caribenha e a chuva em Bogotá no dia do pleito, além da falta de interesse.

Para o mineiro Fábio Maciel, que vive na Colômbia há um ano, entre os fatores que levaram à vitória do Não estão a falta de interesse da população pela política, o desconhecimento, de grande parte da população, do real teor do acordo de paz e a grande abstenção registrada no dia do plebiscito. Ele considera o resultado da votação uma vitória do ressentimento. “Atrasamos a comemoração de  ver um país livre de uma de suas guerras”, diz o engenheiro de petróleo.

Segundo dados da Migração Colômbia, atualmente cerca de 3 mil brasileiros moram no país, mas a Embaixada do Brasil em Bogotá estima que esse número seja bem maior. Nos últimos três anos ingressaram anualmente na Colômbia quase 135 mil brasileiros.

Sabrina Craide
Agência Brasil

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