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Brasil tem sistema falho para detectar tornados e microexplosões climáticas, diz especialista

Sem radares meteorológicos suficientes e com sistemas falhos de avisos de tornados ou tempestades severas, o Brasil está despreparado para enfrentar esses fenômenos climáticos frequentes.

Um deles é a chamada microexplosão –rajadas de vento em alta velocidade que batem no chão e se espalham como uma bomba.

Sem alerta, esse fenômeno fez uma vítima recente em São Paulo. Mônica Santos, 22, estava ao ar livre no Largo da Concórdia, na tarde de 16 de maio, quando foi atingida por uma árvore derrubada por esse evento climático.

Em junho, tornados e microexplosões mataram outras três pessoas no Estado, derrubaram centenas de árvores e destruíram bairros em cidades como Jarinu e Campinas.

“O Brasil tem por volta de 40 radares meteorológicos. Para cobrir todo o país precisamos pelo menos dobrar esse número, além de formar dezenas de profissionais para operá-los”, diz Carlos Morales, do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas) da USP.

A falta crônica de radares e de profissionais bem treinados para isso se soma a problemas conjunturais, afirma o meteorologista Ernani Nascimento, da Universidade Federal de Santa Maria.

Segundo ele, justamente pela falta de recursos, os lançamentos noturnos de balões meteorológicos pela Aeronáutica em diferentes aeroportos do país, sempre às 21h, foram suspensos. Só os diurnos, feitos às 9h, continuam.

As sondagens atmosféricas são usadas para antecipar o tipo e a intensidade das tempestades. A ausência desses lançamentos, por exemplo, dificultou a análise dos fortes ventos que atingiram Campinas, diz o pesquisador.

Números oficiais da Aeronáutica indicam que são lançados 32 desses balões todos os dias. A volta dos lançamentos noturnos, segundo a instituição, ocorrerá em julho.

GARGALO

Mesmo que houvesse 80 radares no país e dezenas de novos profissionais habilitados para operá-los, há outro entrave. O Brasil não tem um sistema de avisos meteorológicos para a toda a população, como existe, por exemplo, nos Estados Unidos.

Lá, em regiões atingidas por tornados, é comum que sirenes instaladas nas ruas toquem de forma estridente horas antes de um possível evento atmosférico.

O alerta é complementado por informes via celular, pela televisão -que fica preta e começa a tocar um alarme- ou pelo rádio do carro.

A mensagem normalmente diz quanto tempo será necessário ficar nos porões ou longe de janelas. “Ainda não é viável um sistema de emissão de alertas como o americano”, diz o meteorologista da Federal de Santa Maria. “Não é só um problema de previsão e monitoramento.”

Para o especialista, tem que ser criado uma infraestrutura de comunicação, envolvendo vários setores da sociedade, inclusive a mídia.

“Não pode haver burocracia nos alertas de tempestades severas”, afirma.

A falta de uma espécie de cultura do desastre natural no Brasil também é um problema a ser atacado. “Entrar em pânico ao receber um alerta meteorológico, como se tivesse lido uma sentença de morte para ela, é pior do que não receber aviso.”

Apesar de enumerar os avanços obtidos pelo país no monitoramento e gestão de riscos nos últimos anos, assim como fizeram os outros pesquisadores, Kátia Canil, da Universidade Federal do ABC, diz que é preciso mudar a gestão de risco feita em cidades e Estados.

“O sistema de Defesa Civil está centrado nos militares. É preciso separar o que é atendimento a desastres que precisa do apoio militar, dos bombeiros, de ações de prevenção que fazem parte de um plano de gestão.”

Segundo Kátia, assim como é o modelo de gestão de riscos na Colômbia, o ideal seria desenhar uma estratégia a partir da ação de várias secretarias de governo, e não apenas da Defesa Civil.

Houve dois avanços no país recentemente. Foram instalados nove radares pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).

Segundo Carlos Frederico Angelis, pesquisador do centro federal, o plano é contar com mais 12 radares. “Isso fará com que todos os locais suscetíveis a desastres estejam cobertos por radares.”

Na última semana, a capital paulista, por meio da USP, ganhou um novo radar. Ele poderá ver a chuva em cada rua da cidade. “Será possível montar um sistema de alerta bastante eficiente”, diz Mario de Barros, da Poli/USP.

Por Folhapress

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