Cultura

Biografias do padre Marcelo Rossi vão da anorexia à depressão

O paulistano foi um dos 15 brasileiros numa lista que juntou do músico Carlinhos Brown ao banqueiro Pedro Moreira Salles - foto: reprodução

O paulistano foi um dos 15 brasileiros numa lista que juntou do músico Carlinhos Brown ao banqueiro Pedro Moreira Salles – foto: reprodução

Em 1999, a “Time” e a CNN incluíram Marcelo Rossi entre os 50 latino-americanos que liderariam o novo milênio. A revista e o canal de TV americanos se impressionaram com aquele “padre dançante” que dividia espaço com paquitas de microshort no programa da Xuxa e que, na missa, jogava baldes de água benta nos fiéis.

O paulistano foi um dos 15 brasileiros numa lista que juntou do músico Carlinhos Brown ao banqueiro Pedro Moreira Salles. “Não será surpresa se, um dia, o moço da ‘aeróbica do Senhor’ chegar a ser papa, tamanho é seu carisma”, previram os estrangeiros.

Nos anos seguintes, o católico escreveu best-sellers como “Ágape” – empilhados, os exemplares comercializados superariam dez vezes os 8.848 metros do monte Everest. Em 2014, vendeu mais discos que Roberto Carlos.

No fim de ano, chegam às livrarias duas biografias sobre o homem que, cantando refrões como “erguei as mãos e dai glória a Deus”, reconduziu multidões à Igreja Católica – e, por tabela, passou a conviver com o pouco eclesiástico rótulo de “padre popstar”.

Pelos títulos, vê-se logo que os escritos, apesar de não autorizados, são simpáticos ao cura. Ambos são assinados por jornalistas: “Uma Vida Dedicada a Deus” (Heloisa Marra, ex-“O Globo”) e “A Superação pela Fé” (Edison Veiga, “O Estado de S. Paulo”). Não se furtam, contudo, de mostrar o homem por trás da batina. Anorexia e depressão são algumas das feridas tocadas.

Os livros falam sobre sua inveja ao ver “todo mundo crescendo”, menos ele, na faculdade de educação física que fez em Santo André (SP) – daí unir fisiculturismo e anabolizantes. Isso antes de cogitar o sacerdócio, após participar de um evento carismático chamado Rebanhão.

Falam sobre um homem que se sente alvo de inveja, o que teria agravado seu quadro de depressão. Rossi atribui ao olho gordo as mortes “do nada” do dogue alemão presenteado por Xuxa e do fila que ganhou de um amigo. A apresentadora já confessou que rezava enquanto fazia ginástica e lhe disse: “Sou sua fã”. O padre rebateu: “Seja fã de Deus”.

Onipresente

Os livros citam ainda sua superexposição na virada do século. Na época, Marcelo Rossi estava em todas. Foi capa de “Caras”, “Quem”, “Contigo”. Ia do “Planeta Xuxa” ao “SBT Repórter” – lá disse que “se Jesus vivesse hoje estaria nos meios de comunicação”.

Também no SBT, em 2002, no programa do Gugu, teria exigido que o ator transformista Jorge Lafond (da personagem Vera Verão) saísse do palco para poder entrar. Na MTV, condenou a camisinha enquanto ajudava Astrid Fontenelle a preparar uma pizza, em “Pé na Cozinha”.

O padre não quis dar entrevista à Folha “porque não leu e nem pretende ler” as biografias a seu respeito, segundo sua assessoria de imprensa.

Sua reclusão midiática se acentuou há uns anos. “Em 1999, me expus tanto que fui eleito mala do ano. […] Reconheço que exagerei”, disse à revista “Época”, em trecho reproduzido na obra de Marra.

Autores

“Minha proposta sempre foi fazer uma grande reportagem”, diz Heloisa Marra. Ela não entrevistou o padre, mas falou com dezenas de pessoas do seu entorno, do cineasta Moacyr Goés (de “Maria, Mãe do Filho de Deus”, em que Rossi interpreta o anjo Gabriel e ele mesmo) ao cantor Belo (parceiro em músicas como “Noites Traiçoeiras”).

Edison Veiga conta que leu mais de 10 mil reportagens para escrever sobre o padre “assediado como se fosse um astro de rock, um ator global protagonista da novela das nove, um ídolo do futebol”.

Esteve com Rossi em outubro de 2012, um mês antes de seu biografado inaugurar em São Paulo o Santuário Mãe de Deus, “para durar 700 anos”. O projeto, que tem 30 mil m², e teto que lembra o dorso de uma pomba, é de Ruy Ohtake.

O acidente na esteira ergométrica, ponto crucial na trajetória do padre, é destaque nos dois livros. Eram 4h de 29 de abril de 2010. Seu time, o Corinthians, tinha perdido de 1 a 0 para o Flamengo e sido eliminado da Libertadores.

Ele perdeu o sono e decidiu correr. No fone, “Sunday Bloody Sunday”, do U2 – Rossi lista a banda como uma de suas prediletas (“mas nunca gostei dos Rolling Stones, por causa de ‘Sympathy for the Devil'”).

Sentiu vertigem, pisou em falso e lesionou o tornozelo.

Dias antes, fora convidado para conhecer Bento 16 no Vaticano. Foi um acontecimento. Em 2007, afinal, ele havia sido barrado de cantar para o mesmo papa em São Paulo – não era benquisto por todos da Igreja. Para poder ir a Roma, recorreu a um tratamento pesado, que o fez engordar 40 kg e ficar na cadeira de rodas por três meses.

Depois emagreceu tanto que a internet foi tomada por suspeitas que iam de anorexia (verdadeira) e Aids (falsa). Ao “Fantástico”, explicou que fez uma “dieta maluca, só alface e hambúrguer”. Seu novo livro, “Ruah” (ainda em pré-venda), remete à sua fixação com hábitos alimentares. “Quebrando os paradigmas de que gordura é saúde e magreza é doença”, diz a capa.

Padre Marcelo costuma ir direto ao ponto, o que fica claro no ditado que usa para explicar sua aversão a homilias longas. “Em cinco minutos é Deus quem está falando; em dez, é o homem; e em 15 minutos é o diabo, porque é enfadonho e afasta o fiel da igreja.”

Por Folhapress

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