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Áureo Melo, evocação

Só agora estou tendo a infausta notícia: Áureo Melo desencantou-se. Prefiro evocá-lo à maneira de Guimarães Rosa, assim como se referia à vida quando ela se apaga.

Já não parei de relembrá-lo, reportando-me a meus tempos de juventude. Naqueles anos distantes, apesar da escuridão que envolvia Manaus, a alma da poesia a iluminava. De logo vem-me à memória Américo Antony, cujo poema “A Ronda dos Cisnes” ainda hoje me fascina. Kideniro Teixeira acabara de editar seu primeiro livro – “Lanterna Azul”. De quando em quando vinham à luz os poemas antológicos de Mário Ypiranga Monteiro. Pelo murmurinho se dizia que Plínio Coelho também versejava. Até que um dia, para surpresa de todos nós, ele dera à público “Pororoca”, a meu ver o mais belo soneto de quantos já decantaram esse portentoso confronto da natureza.

Não faltavam poetas ainda que implumes. Da minha geração – dentre os que se sentiam abençoados por Caliope – o único de asas grandes era Paulo Monteiro de Lima. Nesse contexto, Áureo Melo ousara alçar voo. Ao editar “Luzes Tristes”, de imediato ficara reconhecido como poeta de inegável valor. Foi isso em 1945. Nova safra de poemas e sonetos, três anos depois, enfeixados na obra “Claro-Escuro” deu-lhe a consagração merecida, com espaço cativo na “Página Literária” do Jornal do Comércio.

Mas a poesia – que o acompanhou sempre – não lhe impediu a brilhante carreira política: Deputado Estadual, eleito em 1947, integrando a Assembleia Estadual Constituinte, no momento em que, derrubado o Estado Novo, o País se redemocratizava. A partir de então, o triunfo lhe marcou os passos: Deputado Federal pelo Amazonas (1953-1959); Deputado Federal pela Guanabara (1964-1967); Senador pelo Amazonas (1987-1995). De sua atividade parlamentar registro, em especial, algumas leis de reconhecida relevância: a que homenageou a figura excepcional do Marechal Cândido Rondon, dando-lhe o nome ao Território Federal, que antes fora denominado Guaporé; a que protege o guaraná da nossa Maués, obrigando que seu uso seja comprovado, nas devidas proporções, nos refrigerantes que lhe trazem o nome; a que estabelece a dublagem para o português dos filmes estrangeiros, quando exibidos no País.

Sobretudo quero destacar a luta que Áureo Melo travou – pela criação da Petrobrás, consolidando a tese do monopólio estatal, num choque aberto com os que defendiam a proposição privatista. Vale dizer: a abertura da Petrobrás ao capital estrangeiro. Tive o privilégio de ouvi-lo no primeiro comício que se fizera em Manaus, no Largo da Matriz, quando a campanha nacionalista apenas se iniciava. Ali estavam (na mesma trincheira) o presidente do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo – Dr. Djalma Batista, Plínio Ramos Coelho, Arthur Virgílio Filho, o jovem estudante de Direito Antônio Angarita da Silva. E tempo depois pude aplaudi-lo na Assembleia Legislativa do Estado, de cujas galerias muitos de nós fomos expulsos à ponta de baioneta, porque ali leváramos o apoio ao intimorato defensor da grande causa nacional.

Neste momento dramático que o País está vivendo – a Petrobrás desfigurada pela corrupção mais espantosa – evoco o grande tribuno, mais do que ao próprio poeta, e escrevo com o calor da verdade: como nos faz falta a palavra audaz de Áureo Melo!

Almino Affonso

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