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As chaminés e a flatulência das árvores

Alfredo MR Lopes - Filósofo e ensaísta

Alfredo RM Lopes filósofo e ensaísta

O alerta do filósofo pré-socrático Heráclito – que a Ciência, parece, ignorar – diz que “Nós não podemos jamais entrar no mesmo rio, pois, como as águas, nós mesmos já somos outros” com o arremate de que a única coisa imutável na Physis – o universo e o que nele há – é que tudo muda. Insistimos, 25 séculos depois, que não se pode imobilizar descobertas, dogmatizá-las, tirando-lhes a expansão evolutiva do movimento, da mutabilidade permanente.

Nesse contexto, a matéria da Agência FAPESP, assinado por Peter Moon, acerca do artigo de Paulo Artaxo, “Fotoquímica do isopreno sobre a Floresta Amazonica”, publicado na revista PNAS, Proceceedings of the National Academy of Sciences”, é pura precipitação. O artigo descreve um trabalho da iniciativa Go Amazon, que inclui atores internacionais, incluindo o Departamento de Energia dos Estados Unidos, que foi financiado pelas fundações de pesquisa de São Paulo e Amazonas. O título da publicação paulista é peremptório: “Poluição de Manaus inibe fotossíntese da Amazônia e reduz formação de chuva”. Devagar com o andor! “As emissões que saem das chaminés industriais (????) e dos escapamentos da frota de veículos formam uma pluma de poluentes na troposfera sobre Manaus”. E mais: a poluição urbana produzida pela cidade de Manaus tem influência direta — e potencialmente prejudicial — sobre a biogeoquímica da floresta amazônica. Quem falou isso?
Não há chaminés nas fábricas de Manaus, importante esclarecer. O arranjo produtivo do modelo ZFM não permite, embora funcione com a energia das termelétricas, ora em processo – lento e oneroso – para o gás natural, ora na LavaJato.

A agência federal de energia e a política industrial dominante, entretanto, não incentivam a energia solar nem autorizam o PPB, processo produtivo básico para a fabricação de painéis fotovoltaicos, em Manaus, que viabilizaria a expansão desta fonte solar, coerente com a oferta natural é excepcional na região. O artigo de Paulo Artaxo diz: “Estamos neste momento desenhando novos experimentos que vão tentar quantificar qual seria o efeito da pluma (de poluentes) de Manaus na floresta”. E esclarece: “A concentração normal de ozônio na troposfera da Amazônia é muito baixa, de 10 a 15 partes por bilhão (ppb) no meio do dia.

Por onde passa a pluma poluente de Manaus, as concentrações de ozônio quadruplicam, saltando para 40 a 50 ppb.” Dez partes de ozônio para quarenta, num universo de um bilhão, afinal, o que significaria, perto das emissões de um alguns compostos orgânicos – VOCs, emitidos pela flatulência de algumas espécies arbóreas amazônicas, ainda sob investigação pelo INPA? Em 1988, Ronald Reagan, presidente dos EUA, mencionava que 80% da poluição tinha origem vegetal. Foi trucidado pelos ambientalistas e pela academia. Duas décadas depois, porém, o biólogo Mark Potosnak, doutor em ciências ambientais pela Universidade Columbia foi em seu socorro: “Muita gente vai espantar-se com a quantidade de ozônio que algumas árvores emitem”.

O alerta de Artaxo, acima de tudo, recomenda a urgência de novas pesquisas e troca imediata da matriz energética, com que concorda outro cientista qualificado Niro Higuchi. Entretanto, ao contrário da matéria, Artaxo não se mostrou alarmista como são suas referências à poluição dos grandes centros urbanos do Sudeste que derrubaram 95% da Mata Atlântica. nem do Centro –Oeste onde o agronegócio detonou o aquífero pelo uso e abuso de água e a contaminação com pesticidas exigem reparação. Seu artigo permite reafirmar que, na Amazônia, o buraco (do ozônio) é decididamente mais embaixo e que sentenças sobre a biodinâmica florestal precisam da prudência e da sapiência dos pré –socráticos, para os quais tudo flui – incluindo o flato das árvores, e o sofisma sobre as chaminés – e nada permanece.

alfredomariolopes@me.com

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