Dia a dia

Após morte de líder comunitária, povo abandona a Portelinha

Nesta quarta-feira, várias pessoas aproveitaram a presença das polícias Civil e Militar, nas ruas da comunidade, para retirar seus pertences das casas e deixar o lugar, devido o medo no local- fotos: Diego Janatã

Nesta quarta-feira, várias pessoas aproveitaram a presença das polícias Civil e Militar, nas ruas da comunidade, para retirar seus pertences das casas e deixar o lugar, devido o medo no local- fotos: Diego Janatã

Nem mesmo a presença das polícias Civil e Militar, nesta quarta-feira (19), na Comunidade Portelinha, localizada no município de Iranduba (a 25 quilômetros de Manaus), foi suficiente para evitar que moradores e comerciantes deixassem o local, onde portas e janelas permanecem fechadas, desde a morte da líder comunitária Maria das Dores Santos Salvador Priante, 54, a “Dôra”, ocorrida no último dia 13.

Populares afirmam estar assustados com a insegurança instalada na área. Evitando comentar os últimos episódios ligados à morte de Dôra, alguns moradores aproveitaram a presença dos policiais na manhã de ontem, nas comunidades Portelinha e Serra Baixa, para retirar pertences de suas casas.

De acordo com um comerciante que preferiu não se identificar, há três semanas ele escolheu a comunidade para viver e trabalhar devido à falsa sensação de paz e tranquilidade que o lugar passava. Segundo ele, após o crime, motivado por brigas pela posse de terras, a decisão de residir na Portelinha, até os seus últimos dias da vida, mudou.

“Eu achava essa comunidade o melhor lugar do mundo para se viver. Depois desse acontecimento, a minha maior vontade é vender tudo e sair daqui o mais rápido possível. Não quero passar o resto da minha vida, apreensivo, com medo, achando que a qualquer hora isso aqui vire um faroeste. Todos os moradores estão evitando abrir janelas e portas, com medo de retaliações por parte desses líderes”, disse.

Outras duas moradores do município de Iranduba, que estavam na comunidade na manhã de ontem, durante a ação da polícia, informaram que comentar sobre o assassinato de Dôra Priante no local é o mesmo que assinar a sentença de morte. Na ocasião, elas ressaltaram que estavam no local apenas para retirar o pai, que morava sozinho na Portelinha. “Não queremos nos envolver, é perigoso comentar alguma coisa. Só queremos fazer a mudança do nosso pai o mais rápido possível. Estamos levando apenas o necessário para viver, depois a gente pensa o que faremos com o resto que ficará para trás”, salientaram.

O delegado titular do município de Iranduba, Paulo Mavgnier, destacou que a operação realizada ontem nas comunidades foi a pedido do governador do Estado José Melo. Mavgnier frisou que o objetivo da ação foi o de promover um diálogo com a comunidade para que seja restabelecido o controle da segurança no local.

“Estamos aqui para que não haja mais retaliações, uma vez que o Adson (mentor do assassinato da líder comunitária) e a Dôra eram duas fortes lideranças da comunidade. A operação foi deflagrada para que não ocorram mais conflitos agrários na região. Queremos estabelecer uma relação de confiança entre a polícia e os moradores. Isso foi uma determinação do próprio governador”, destacou.

Policiamento será contínuo

Conforme o delegado Paulo Mavignier, uma estratégia de planejamento está sendo montada por parte da Polícia Militar, para que o patrulhamento na área seja intenso e constante. Ele salientou que a medida será adotada na região para acabar com o clima de terror que era disseminado por Adson Dias da Silva, 38, o ‘Pinguelão’, mandante do crime, devido à disputa pela presidência da associação da comunidade e pelo comando do comércio de terrenos.

“Colocaremos viaturas e motos da PM para realizar patrulhamento na área diariamente no intuito de garantir a segurança. Esperamos que não ocorram aqui nesta região situações como a que aconteceu na semana passada”, frisou.

Moradores evitam falar sobre a morte de Dôra Priante, por temerem represálias

Moradores evitam falar sobre a morte de Dôra Priante, por temerem represálias

O delegado comentou que uma investigação está sendo concluída até a próxima semana sobre o esquema de grilagem que era comandado por ‘Pinguelão’. Segundo Mavignier, o suspeito aproveitava a liderança para comercializar terras de propriedade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

“‘Pinguelão’ costumava negociar o mesmo terreno diversas vezes. Ele vendia e o comprador não construía nada em dois meses, ele voltava e vendia novamente, porém esses terrenos eram do Incra e ele não tinha autonomia para isso. Baseado nisso, a PC foi motivada a iniciar uma investigação sobre a grilagem de terra. Esperamos que isso sirva de exemplo para os demais que pretendem ingressar nesse caminho do crime. A polícia vai ser vigilante e não vamos mais tolerar esse tipo de postura. Infelizmente, essa briga por terras ocasionou na morte da líder Dora”, finalizou.

Por Gerson Freitas

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