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Após largar carreira na polícia, roupeiro pé-quente coleciona três títulos amazonenses

Atualmente no Galo da praça da Saudade, Brasil é muito querido por todos os jogadores com quem já trabalhou – Márcio Melo

Uma das funções mais necessárias do futebol é do roupeiro, que nos dias de hoje passou a ser chamado de mordomo. Eles são os primeiros a chegar e os últimos a sair, e são responsáveis por cuidar das camisas, chuteiras, calções e meiões dos craques. O conhecido de torcidas do São Raimundo, Rio Negro, Nacional, Fast Clube, Holanda e Sul América, Fernando Brasil, 74, abre nossa série de reportagens especiais sobre os bastidores da bola dos clubes da primeira divisão do futebol amazonense.

Com três títulos de Campeonatos Amazonenses na carreira, o roupeiro é o maior campeão em atividade atualmente no território baré. A primeira conquista aconteceu com as cores do São Raimundo no estadual de 1999. Na sua passagem pelo Nacional em 2014/2015, participou da conquista do bicampeonato. Sua fama de pé-quente não parou por aí, pois pelo Tufão da Colina ele foi o roupeiro tricampeão do Norte nos anos de 1999/2000/2001. No total, são seis títulos na carreira, pois ele fez parte da comissão técnica do Manaus Compensão, que, como campeão da segundinha, ascendeu à elite em 2010.

“Se existe essa fama de pé-quente eu não sei, mas eu me esforço bastante para dar condições e tranquilidade ao trabalho dos jogadores. Acredito que isso colabora bastante para o melhor desempenho emocional dos atletas. Aos poucos, vamos fazendo nosso nome no futebol e as propostas por um serviço eficaz chegam até nós”, diz.

O ex-atacante Marcelo Araxá, quando atuava com as cores do São Raimundo, depositava total confiança no roupeiro. Religioso, o goleador colinense do fim da década de 1990 e início dos anos 2000, utilizava um crucifixo nos jogos do Brasileiro Série B, quando a arbitragem não proibia o objeto de sorte do craque o roupeiro era acionado.

“Ele entrava em campo e fazia gols com aquele crucifixo, pois passava sorte para ele. Mas, algumas vezes, os árbitros mandavam ele tirar e o Marcelo Araxá passava para eu segurar. Quando passava batido, ele jogava assim mesmo. Ele me deu um crucifixo que utilizou na goleada por 4 a 1 sobre o Desportiva-ES e até hoje guardo comigo de lembrança, pois naquela noite na Colina, ele marcou dois golaços e o time assumiu a liderança do módulo amarelo da extinta Copa João Havelange”, lembra.

Brasil cita as dificuldades que passou na profissão e a eficácia do trabalho do mordomo nos dias de hoje no futebol. “O roupeiro é uma profissão, é um elemento importante dentro de um clube de futebol, é uma ‘mola mestra’ para o funcionamento do time. É o primeiro que chega e o último que sai. A responsabilidade é muito grande, pois todos os bens materiais dos atletas ficam guardados dentro da rouparia ou nos vestiários em dias de jogos, é uma função de muita responsabilidade, pois o jogador confia no roupeiro dele, lá fica o relógio, dinheiro e joias. Tem estádios em algumas cidades do interior que não possuem segurança, já acontecer arrombamento e furto em delegações onde trabalhei. Em certas ocasiões eu assisto um pouco do jogo e de vez em quando preciso reparar os materiais”, conta.

Da polícia para as glórias no futebol

Como roupeiro, Fernando Brasil ingressou no futebol após largar a carreira de policial militar há 23 anos. Quando entrou para corporação, estava com 21 anos de idade e deixou a carreira militar aos 51. Após 30 anos no setor administrativo da polícia, Brasil entrou para o mundo da bola, após convite para ser roupeiro das categorias de base do Fast Clube, em 1994. De lá foi para o Sul América, em 1995. No Trem foi bicampeão amazonense pelos times infantil e juvenil em 1995/1996. Seu último clube antes de engrenar nos grandes foi o Holanda, onde, de quebra, foi campeão da Copa Fiola Juniores.

“Foi um começo positivo, pouco eu poderia esperar que viria tempos cada vez melhores no esporte. Entrei sem imaginar que iria participar de delegações campeãs. Fiz muitos amigos no Fast e no Sul América, pois no futebol o tempo passa, mas o carinho das pessoas fica e as amizades continuam”, diz.

Ele não esconde o carinho maior pelo São Raimundo. O Alviceleste proporcionou muitas oportunidades ao profissional da bola. Ele afirma que o salário da função poderia até não ser um dos maiores, mas afirma que serão lembrados os momentos em que conheceu quase todas as capitais do Brasil. No São Raimundo, ele participou da comissão técnica do time que disputou o Campeonato Brasileiro Série B das edições de 2000 a 2004.

“Fui mais feliz no São Raimundo, não tem como comparar, o grupo era forte e conquistei a maioria dos meus títulos por lá. Ser campeão do Norte três vezes consecutivamente é algo incomparável ao nível do nosso futebol. Quando o clube jogava o Brasileiro, me deu condições de conhecer quase todos os Estados”, afirma.

Reencontro

Quando o São Raimundo duelou contra o Caxias pela Série B 2004, em Porto Alegre, Fernando Brasil teve a chance de rever o filho Renier, que na época era atacante do Ypiranga-RS, pois fazia 5 anos que os contatos ocorriam somente por telefone.

“Fomos para um jogo em Caxias do Sul, lá eu encontrei com meu filho, foi emocionante. Também gostei muito da cidade de Natal, por ser um ponto turístico fora do comum, as praias, a recepção e os hotéis cinco estrelas são de outro nível. Em Goiânia, o Serra Dourada ficou na memória, em Fortaleza é impossível não lembrar do Castelão, pois eram os estádios mais conhecidos da Série B daquela época. Devido essas lembranças, eu acredito que vou continuar na profissão enquanto Deus me conceder saúde. Por isso eu digo que agradeço muito ao São Raimundo”, relembra.

Outro clube que também causa boas lembranças em Fernando Brasil é o Nacional. No Leão da Vila Municipal, ele participou do último bicampeonato estadual, e garante que no CT Barbosa Filho se espelhou no roupeiro Francisco Silva, que passou quinze anos na função pelo clube.

“Fiz muitos amigos no Nacional e vi muitas pessoas de caráter, conheci o roupeiro Chico, que mais me deu força para eu trabalhar, ele é um ser humano exemplo de honestidade. Quando trabalhei lá precisei esquecer um pouco do meu passado pelo São Raimundo, pois assumir um compromisso no futebol é algo muito sério. Até pouco tempo ainda existia rivalidade entre ambos os clubes”, disse.

João Paulo Oliveira
EM TEMPO

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