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Antes de criticar o Boi de Parintins é melhor refletir

O corte de verbas para a realização do Festival Folclórico de Parintins afeta muito mais  que a economia da cidade, mas toda a população que depende da festa para sobreviver - ilustração: Mário Adolfo

O corte de verbas para a realização do Festival Folclórico de Parintins afeta muito mais
que a economia da cidade, mas toda a população que depende da festa para sobreviver – ilustração: Mário Adolfo

Seu João tem 65 anos. Ele é dono de um pequeno ateliê que, artesanalmente, confecciona adornos em Parintins. Faz isso há 55 anos, após herdar a habilidade do pai. Com este negócio, conseguiu mandar duas filhas para estudar em Manaus. Deposita dinheiro todos os meses, mas há quatro meses não faz qualquer transferência bancária, pois soube que não vai haver o Festival Folclórico de Parintins em 2016.

Surpreso, foi informado que o governo cortou a verba. As filhas teriam que voltar para o interior. Notícia ruim de se dar a elas, que até 2 anos atrás ajudavam o pai no ateliê. Antes de elas voltarem de “mala e cuia”, surgiu um alento. O presidente da República disse que daria R$ 4 milhões para viabilizar a festa. Parintins vibrou.

Do outro lado, a internet gritou no “Tribunal do Facebook”. Disse que é um absurdo bancar uma “festinha para poucos”. O rebanho de internautas seguiu o discurso sem pensar, como bezerros. Diante da repercussão negativa, a Presidência cancelou o repasse.

As duas filhas de seu João tiveram que voltar de barco, pois não tinham dinheiro nem para passagem de avião. Abandonaram o sonho da faculdade. Ao chegarem em casa, encontraram o amigo vizinho chorando na porta de casa. O pai havia comprado um grande suprimento para abastecer o comércio, esperando a festa. Vai amargar um prejuízo e não conseguirá pagar o aluguel de casa. O tio das moças, que comprava ferro em Manaus para reformar triciclos, não o fez. Vai ter que comer conserva por dois meses, e a fábrica que vendia para ele teve que demitir quem fazia essa “ponte”, pois ela não era mais necessária.

Os donos de restaurantes decidiram nem abrir, assim como os hotéis e pousadas. Todos também haviam se abastecido e não vão poder nem pagar o fornecedor na capital. “Pino” à vista. Quem alugava casas para o festival há décadas também não sabe o que fará sem o ganho extra. Isso nunca havia acontecido.

Em Manaus, donos de embarcações dispensaram tripulações inteiras, pois, sem as viagens para a ilha, os negócios complicaram. O comércio, que também explodia com as vendas e presença de turistas, demitiu vendedores, e supermercados contabilizam produtos estragados por não haver “festeiros”, que antes levavam fardos e fardos para o festival. Gol e Azul cancelaram voos que traziam turistas de fora. As agências de Manaus sentiram o baque e a rede hoteleira viveu o pior mês dos últimos anos. O índio chorou. O branco chorou!

Esse conto é fictício (ou quase). Mas agora você consegue entender que o festival de Parintins não é só uma “festinha para poucos” que se resume a uma brincadeirinha de três dias para satisfazer um pequeno grupo?

Vá um pouco mais além ao analisar esta situação. Se você olhar de forma rasa, não vai conseguir ver o quanto essa derrocada é prejudicial para todos nós, até para você que odeia boi e que tem vergonha das toadas e se orgulha ao ver a falência da festa. O Estado arrecada R$ 54 milhões com essa “festinha” e investe pouco mais de R$ 10 milhões (números de 2013).

Com ou sem festival, as pessoas vão continuar precisando de ajuda nos hospitais e melhorias na educação. Não é nem Garantido nem Caprichoso que prejudicam a segurança. Cultura corresponde a 1% de todo o orçamento.

Você acha mesmo que esse 1% é que faz a diferença no resultado final no balanço anual? Que os bois aprendam a não depender apenas de verba pública. Que andem com as próprias pernas e que também haja investimento do governo na festa. É nossa cultura. São as nossas raízes. Temos que valorizá-las. E o meu olhar vai muito além do meu querer.

Por Mário Adolfo Filho

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