Dia a dia

Amazonas se transforma em um ‘faroeste caboclo’

Conflitos em Iranduba, como o da comunidade Portelinha, estão sendo monitorados pela CPT. Foto: Diego Janatã

Conflitos em Iranduba, como o da comunidade Portelinha, estão sendo monitorados pela CPT. Foto: Diego Janatã

Algumas regiões no interior do Amazonas estão voltando aos tempos de velho oeste”. Essa é a triste e grave constatação da coordenadora da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Amazonas, Maria Clara Ferreira, ao atender a reportagem de EM TEMPO.

Em viagem ao município de Anori – localizado a 234 quilômetros de Manaus -, Maria revelou dados assustadores sobre o conflito de terras no Estado.

“Velho Oeste” é um termo que faz referência ao período de povoamento da costa oeste norte-americana no final do século 19. Marcado pela violência, onde o porte de armas era livre e valia a lei do mais forte, o período foi “glamourizado” como estilo cinematográfico em Hollywood.

No entanto, tal qual a realidade nos EUA não tinha nenhum glamour, no interior do Amazonas ela também não tem. Apenas para efeito estatístico, conforme dados da CPT nacional, em 2014 haviam sido 20 assassinatos no primeiro semestre.

Em 2015 foram registrados 23, sendo que desse total somente um não foi na Amazônia. Esta semana, Maria Clara divulgou a informação de que existem 38 pessoas na lista de marcados para morrer no Amazonas.

Na verdade, esses são apenas os poucos casos em que as vítimas procuram a polícia. “Poucas pessoas que sofrem ameaças de morte têm coragem de denunciar. O conflito de terras hoje no Amazonas é algo grave. A capital está enfrentando esse problema em diversos pontos”, afirma.

Mas, de acordo com a coordenadora da CPT, o problema já se alastrou pelo interior. “Acompanhamos os casos do Pau Rosa, o Úbere/Brasileirinho, o Iranduba. Além disso, também monitoramos a situação de outros municípios como Presidente Figueiredo, onde agricultores tiveram suas casas queimadas e terras tomadas. Itacoatiara tem mais de 600 famílias em conflito. Lábrea se tornou um verdadeiro “velho-oeste”. O Estado pede que as comunidades façam levantamentos. Fazemos e o governo ignora. O descaso é total”, reclama.

 

Dois pesos, duas medidas

Um dos aspectos destacados pela coordenadora é a diferença de tratamento dado às famílias em comparação às grandes imobiliárias.

“Notamos que para o rico, tudo é mais rápido e simples, enquanto para os mais pobres, os processos nunca avançam.

Basta observar a quantidade de terrenos cedidos a imobiliárias que já estão construindo em Iranduba. Agora observe quanto tempo demora para a Justiça avaliar os processos dos moradores”, pondera.

 

Por Fred Santana

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