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Alunos e professores da UEA desenvolvem projeto artístico nas penitenciárias de Manaus

Atividades permitem melhorias no relacionamento entre as participantes – foto: divulgação

Atividades permitem melhorias no relacionamento entre as participantes – foto: divulgação

“O teatro é uma arma. Uma arma muito eficiente”, disse o dramaturgo Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, na década de 1960. A afirmativa vem sendo comprovada pelos acadêmicos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que utilizam a arte para auxiliar na transformação de internas do Centro de Detenção Provisório Feminino (CDPF). O trabalho é desenvolvido há cinco meses, por meio do projeto de extensão “Arbítrio: teatro nas penitenciárias na cidade de Manaus”.

O projeto começou a ser estruturado em agosto de 2014, pela professora universitária Annie Martins Afonso. “No primeiro semestre estudamos sobre níveis de opressões sociais e veio a minha dissertação de mestrado. Apresentamos cenas referentes aos estudos que têm a ver com vários tipos de opressão, seja o racismo, homofobia, machismo”, diz.

Com o término da pesquisa, em abril de 2015, o projeto foi implantado dentro do Centro de Detenção Provisório Feminino (CDPF), localizado no quilômetro 8 da BR-174, após acordo entre a reitoria da universidade e a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap).

O CDPF abriga 291 detentas que aguardam julgamento. Do total, 25 delas participam do projeto teatral – desenvolvido todas as quintas-feiras – junto a oito alunos da UEA e da professora Annie Martins. “Lá elas ainda têm planos para o futuro. E aplicamos a técnica do chamado Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, famoso no mundo inteiro, mais até que no Brasil”, lembrou.

As participantes são mulheres de 18 a 55 anos, com baixa escolaridade. A maioria responde por envolvimento com o tráfico ou homicídio após serem vítimas de assédio, estupro, agressão física etc. A estadia de algumas delas no centro é longa, e já chegam a aguardar até 3 anos pelo julgamento.

A professora explica que nos encontros são utilizados jogos teatrais, utilizando as técnicas do teatro Fórum e Imagem, nascidas com o Teatro do Oprimido. No ‘Teatro-Fórum’ as internas representam uma cena de uma experiência por elas vivida. A encenação segue até a apresentação do problema, e ao final é proposto aos espectadores que mostrem, por meio da ação cênica, soluções para o então problema apresentado.

“No início, discutem-se entre elas as opressões sociais vividas, dentro ou fora do presídio. Elas compartilham as experiências. Depois elas contam a história delas em cena. Interpretam a vida delas. E uma parte do grupo fica como plateia. No primeiro momento, a cena termina com o oprimido. Então perguntamos como pode mudar a opressão e vão surgindo várias ideias. E alguém do público substitui a oprimida da cena e faz uma nova possibilidade, pensam em denunciar para a polícia ou fugir para a casa de algum parente”, contou Annie.

Algumas cenas encerram com o desfecho ideal, mas o objetivo mesmo é auxiliar na construção de um senso crítico para que as internas enxerguem novas saídas para os problemas que enfrentam. “O importante é mostrarmos novos caminhos. Elas têm o livre-arbítrio para escolher. Utilizamos jogos teatrais, com regras, desmecanizando o corpo e a mente, criando consciência crítica de quem são, do que fizeram e se existe ou não possibilidade de mudança. O objetivo não é mudar ninguém, o teatro já é uma revolução”, afirmou.

Annie diz que a ideia principal é utilizar o teatro como uma ferramenta para a construção de uma visão crítica do mundo e a mudança de postura, por meio de pequenas atitudes. “O resultado que temos tido é muito forte. A maioria das meninas que estão conosco foi líder de rebeliões. No depoimento atual, elas falam o quanto que melhorou a convivência. Passaram a se respeitar mais e não fazer bullying. O grupo também começou a questionar regras e se unir para o bem estar de todos”.

Por Ive Rylo

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