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Além da economia, startups buscam impacto socioambiental na Amazônia

Startup Praquerumo oferece no seu site pacotes de aventura na selva e nas águas dos rios do AM – foto: reprodução

Startup Praquerumo oferece no seu site pacotes de aventura na selva e nas águas dos rios do AM – foto: divulgação

Não é só de software e gráficos que se faz inovação numa startup. Novos modelos de negócios como, por exemplo, no extrativismo e no beneficiamento de culturas florestais, nas negociações agrícolas, e produtos turísticos de base comunitária e ecoturismo de aventura, são algumas das ideias de jovens empresas amazonenses e de outros Estados brasileiros que, com as suas capacidades de escala buscam gerar impacto econômico, mas também socioambiental para a Amazônia.

 

Antes nas suas caminhadas solitárias, agora pelo menos 15 startups deverão ter acesso a ampliação de parceiros, novos mercados e rede de investidores. Elas ganharam esses passaportes após experiência de pré-aceleração de negócios na segunda edição do Coca-Cola Open Up The Boat Challenge, realizada pela Coca-Cola Brasil e a Artemisia, de 25 a 26 de junho, durante viagem pelo rio Amazonas, de Parintins para Manaus, a bordo do navio Iberostar Grand Amazon.

O acesso aos caminhos para ampliar seus negócios na Amazônia se dará a partir uma rede formada por empresas e organizações parceiras da Coca-Cola Brasil. Para o superintendente técnico-cientifico da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Eduardo Taveira, a construção dessa relação é um dos grandes desafios de grandes empresas que buscam inovação. “Se ela chamar a empresa jovem para jogar junto, focando em áreas estratégicas, e depois prevê um tempo de crescimento dela, de independência, pode ser um caminho que dê certo”, avalia.

Taveira acredita que empresas de inovação que buscam soluções de impacto para a Amazônia deveria ser o ponto de partida para falar sobre o desenvolvimento de estratégias de startups para a Amazônia. Ele aponta que o diferencial que a região o oferece, provavelmente nenhum outro lugar no mundo ofereça, por se tratar da maior floresta tropical do planeta, da qual se fala da riqueza imensurável, mas que de fato a população continua pobre, porque não há efetivamente uma economia de recursos florestais

Como FAS, o superintendente técnico-científico diz que durante a The Boat Challenge, iniciou conversa com duas ou três startups cujos modelos se relacionam com as atividades da fundação. “Nós já chamamos para uma conversa a fim de identificar quais são as sinergias e com que podemos compartilhar infraestrutura e ação, que a partir do desenvolvimento dessas cadeias produtivas locais, por meio das startups, elas sejam remuneradas também a partir disso e que se tenha de fato uma economia a partir da floresta mais qualificada”, afirma.

Para Taveira, a atenção que se começa a dar as pequenas empresas de inovação pode ser classificada como um primeiro passo para uma matriz econômica. Ele, contudo, diz que uma matriz econômica não se faz sem políticas públicas que estimulem. “Não é serão apenas as startups que vão fazer isso. Há todo um processo de contar com políticas públicas eficientes que melhorem essa capacidade de produzir na Amazônia. Depende muito do estímulo de governos e grandes empresas”, avalia.

A cofundadora da Impact Hub, jornalista Juliana Teles, que ajudou na primeira edição do The Boat Challenge, conta que enquanto no ano passado o foco foi a criação de ideias e de uma rede de empreendedores da cidade de Manaus, neste ano se buscou em negócios já existes o amadurecimento em equipe, com olhar voltado para a Amazônia. Para ela, quanto mais colocar essa cultura não só do empreender, mas do empreender e conectar a Amazônia, mais nos aproximamos de ser o potencial que nós realmente somos.

Turismo

Com duas startups focadas no turismo de base comunitária, ecoturismo e turismo de aventura na Amazônia, o CEO Tayke Monteiro trabalha há dois anos com a meta ambiciosa de ajudar na transformação da matriz econômica do Amazonas, gerando impacto socioeconômico a famílias e fornecedores de atividades dos sementos, em Manaus e no interior do Estado. Segundo ele, hoje o mercado mundial de turismo movimenta, cerca de R$ 650 bilhões por ano. Desse bolo, o Brasil retém uma fatia de R$ 500 milhões, de onde a Amazônia consegue apenas 10%.

Dado o potencial do segmento, Tayke trabalha com o Praquerumo e a Amazon Share para desenvolver atividades e atrair o olhar nacional e internacional para a região. “Nosso objetivo é de transforma a matriz econômica do Estado. E vendo que a indústria consegue faturar cerca de R$ 50 bilhões, ano, nós queremos atingir esse valor de uma forma que possamos gerar renda, preservação e sustentabilidade ao Estado”, diz.

O CEO procurou com a Praquerumo uma plataforma onde o organizador da atividade turística utilize o marketing place para divulgar suas atividades on-line, com toda parte de agendamento e reservas, bem como a comercialização por meio de cartões de crédito e boleto bancário. “Nós entregamos para ele [o organizador da atividade turística] exposição e novas ferramentas para que ele possa gerenciar as suas atividades”, explica.

Com a Amazon Share, vencedora do The Boat Challenge de 2015, Tayke diz que trabalha como uma operadora de turismo que participa desde a criação do roteiro até a formatação do produto, com precificação e distribuição nos canais de vendas. “Ela trabalha turismo de experiência de base comunitária e indígena. E vende as suas atividades por meio da plataforma de marketing place do Praquerumo”, diz.

Tayke afirma que o turismo de base comunitária sempre foi o foco da Praquerumo, uma vez que a startup trabalha com comunitários que estão em regiões como Manacapuru, Presidente Figueiredo, Iranduba, Silves e Rio Preto da Eva. “Quando nós falamos de turismo na Amazônia e você procura no Trip Advice, lá tem dez atrações turísticas na cidade concentradas no âmbito urbano de Manaus. E quando acessa um site como o Praquerumo, você tem pelo menos 30 opções de atividades de imersão e de real contato com a floresta amazônica, de forma simples e eficiente”, observa.

Cacau fino

o Amazonas são produzidas, aproximadamente, 7 mil toneladas de cacau, ano - foto: divulgação

No Amazonas são produzidas, aproximadamente, 7 mil toneladas de cacau, ano – foto: divulgação

Na busca pelo resgate da cultura cacaueira que o Amazonas e ganhar o mundo com a produção de chocolates finos, a empresa Na Floresta Alimentos Amazônicos quer, até a safra de 2017, envolver pelo menos 30 famílias fornecedoras de amêndoas de cacau produzidas nos municípios de Urucurituba e de Manicoré, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Madeira. Hoje, segundo o diretor da primeira empresa produtora de chocolate do Estado, Artur Coimbra, 33, pelo menos 12 famílias estão capacitadas sobre a forma correta de desenvolver o cacau fino à indústria de chocolate fino.

Coimbra diz que no Amazonas são produzidas, aproximadamente, 7 mil toneladas de cacau, ano. Mas, a maioria é vendida para fora do Estado, a preços desfavoráveis aos produtores, entre R$ 4 e R$ 6. Ideia que nasceu em 2014, a Na Floresta está incubada no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), no campus Manaus Zona Leste. Ela tem hoje a capacidade de processamento de até 500 quilos de cacau por mês.

Para chegar ao cacau fino, num ambiente onde não havia técnica adequada de colheita, maturação, fermentação e secagem, o empresário explica que a empresa levou o treinamento aos produtores e já nesse ano a Na Floresta, conseguiu comprar deles por um valor até três vezes maior do que é pago em média da região. “Um incremento bem interessante na renda dessas famílias. Fazemos um trabalho de formiguinha porque a nossa capacidade produtiva ainda é pequena”, aponta.

A Na Floresta produz um chocolate com no máximo quatro insumos e no mínimo dois. “Um chocolate que tem açúcar e cacau ou açúcar, cacau, leite e manteiga de cacau, nada mais além do que isso. Depois que recebemos as amêndoas de cacau que foi beneficiada no interior, fermentada e seca, nós torramos e descascamos na fábrica Manaus. E depois segue para o processo de moagem, mistura, conchagem, temperagem e moldagem”, explica.

A comercialização o chocolate ainda está em nível regional e da amêndoa beneficiada chega a cinco fábricas nacionais, duas no Rio Grande do Sul, uma no Pará e outra no Rio de Janeiro. Fora do país tem uma sul-coreana. A meta é chegar a dez fábricas, até 2017, e expandir a venda do chocolate fino para parceiros interessados como São Paulo e Rio de Janeiro. “Queremos ganhar o mundo, mostrar o valor desse cacau, ganhar dinheiro e deixar dinheiro no Amazonas”, afirma.

Floresta em pé

Moradores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari e da Reserva Extrativista (Resex) do Médio Juruá, localizadas no município de Carauari, já conseguem viver com a economia da floresta em pé. A conquista foi possível a partir de iniciativas como a de jovens da Unidade de Beneficiamento de Produtos Florestais (UBPF), da RDS Uacari, que apostaram no beneficiamento de produtos florestais como a andiroba, o murumuru e o açaí, a partir da incubação, em outubro de 2105, pela FAS.

O diretor executivo da UBFP, Mailson da Gama Gondim, conta que antes da empresa nascer, a extração de óleos vegetais acontecia por meio de uma cooperativa do Médio Juruá, na mesma região. Mas, eles tinham iniciado com um projeto de tentar usar o óleo de andiroba como biodiesel, e como não tinham análise química concreta para esse fim o negócio não alcançou.

“Fizemos um curso técnico de produção sustentável em unidade de conservação, pioneiro no Brasil, e no final, nós tínhamos que elaborar um plano de negócio. Foram elaborados seis planos voltados para as cadeias produtivas já desenvolvidas no Médio Juruá. Contemplamos as três cadeias produtivas da andiroba, murumuru e açaí. Optamos por elas porque agregaríamos valor a elas com a diminuição do desmatamento”, conta Mailson.

A empresa que na fase de pesquisa e desenvolvimento (P&D) contava com 15 comunidades e gerou impacto para 75 famílias, tem hoje como único cliente a Natura, que é servida por mais de 300 famílias da RDS Uacari e da Resex do Médio Juruá. “Hoje a nossa perspectiva é buscar novos clientes, novas marcas para ampliar a empresa e melhorar a renda das famílias envolvidas”, afirma.

Agricultura conectada

Quando o finalista de agronomia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Macaulay Souza, 21, disse “brincando” a um amigo de faculdade, produtor de banana, do município de Rio Preto da Eva, que iria criar uma plataforma para facilitar a venda dos seus produtos, ele percebeu que ali nascia a ideia. Hoje CEO da Onisafra, Macaulay conta que reuniu uma equipe com designer, desenvolvedor um especialista em negócio para trabalha em cima da ideia.

Hoje na web a Onisafra, que começou a operar em junho deste ano, é uma plataforma de negociações agrícolas que conecta o produtor com as empresas compradoras. “Criamos um ambiente de negociações justo e transparente por meio de tecnologia. Focamos na qualidade dos produtos ofertados, por este motivo, tanto os produtores quanto os compradores passam por uma avaliação antes de autorizarmos a entrada na rede Onisafra”, afirma.

Com a atual base de usuários produtores da Região Metropolitana de Manaus (RMM), Borba e Tefé, o CEO afirma que a já foi possível conectá-los com empresas e comercializar mais 15 toneladas de produtos. “Hoje temos uma base de mais de 20 produtores cadastrados e pretendemos ampliar por meio de parcerias para esse próximo semestre, principalmente os que estão distantes dos centros consumidores”, diz.

Os principais produtos ofertados são pela Onisafra são açaí, melancia, laranja, banana, abacaxi e farinha e peixes. Depois da pré-aceleração no The Boat Challenge, Macaulay, diz que agora vai procurar parceiros para trabalhar na criação de um sistema de rastreabilidade em que seja possível mostrar a história dos produtores e suas atividades no campo. “Hoje, mais do que conectar o mercado, queremos conectar histórias e valorizar o trabalho do homem do campo”, afirma.

Por Emerson Quaresma
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