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A terra das águas

As várzeas do Solimões ainda estão no ventre da mãe d’água que engole casas, bichos, plantas, campos de bola e de gado. As escolas estão fechadas, as festas rarearam, pois as sedes como a terra estão em pousio. Não há barcos nos portos, pois portos não há. A água que no início de agosto ainda está grande faz mudar as gentes que encaixotam os santos que os protegem e se vão para as periferias das cidades. Antes apenas os encantos que pululavam nas mentes ficavam debaixo d’água, agora é tudo.

Passando no rio, à primeira visão, tudo é igual e vazio, é um mundão de água, a mata ao fundo e um céu limpo e azul que, no horizonte, abraça as águas num contraste de cores. Aqui e acolá o barco para, e a primeira visão se esvai, pois ainda há homens que ficam em suas casas penduradas em nada. Num canteiro flutuante extenso, alguns medem mais de 50 metros de comprimento, plantam hortaliças de onde tiram o sustento nestes tempos de vacas na maromba, e preparam as mudas, guardam a maniva para quando a água baixar e a terra sair fértil recomeçar a vida.

Diz-se amiúde que a Amazônia é um arsenal de problemas e também de soluções e se configura como uma das mais importantes regiões do planeta e por isso deve ser protegida e preservada. Para quem? Em primeiro lugar, deveria ser para a humanidade próxima, aquela que vive aqui. Viaja-se o dia todo de Manaus até as cidades do médio Solimões numa lancha rápida e não se vê nada que apoie essa gente, um barquinho sequer fazendo atendimento médico, ajudando a passar a água.

E assim tem sido nas repetidas cheias que atingem a região com mais frequência desde 2009. De abril a setembro homens e mulheres que vivem da terra, água e floresta perdem seus meios de vivência, a caça se vai para longe, o peixe se torna raro e a terra desaparece. A vida de abundância torna-se de privação, são cinco longos meses comendo o que a água deixou colher.

Ainda há quem se aproveite disso. Assim como há a indústria da seca no Nordeste, aqui se repete a indústria da enchente. Até os postes sabem que no médio Solimões o rio seca até final de outubro ou início de novembro quando vem o repiquete, para em seguida continuar secando e, no final de dezembro, iniciar a enchente que vai até meados de junho. Por que em todo ano há emergência? Será que não há técnicas que poderiam ajudar essa gente das várzeas a passar com menos sofrência o período das cheias?

A ideia de que o homem é um intruso não se sustenta. Mesmo antes da chegada do colonizador as várzeas amazônicas já eram ocupadas e as práticas das gentes criavam as condições alternativas de vivência por meio de processos criativos e eficazes, conciliando a ocupação da várzea com a da terra firme. Ao longo do tempo quando a terra se torna mercadoria, essas práticas foram se perdendo, e hoje as enchentes dos rios tornam-se transtornos.

Portanto, intrusos não são homens e mulheres enquanto seres genéricos, mas quando inseridos num sistema em que a terra e a natureza são vendidas e compradas, e um fenômeno natural como a enchente torna-se meio para ganhar dinheiro, de preferência com a miséria humana.

Por: José Aldemir de Oliveira

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