Economia

Almoçar na rua está 9% mais caro

Trabalhadores que não possuem condições de preparar a própria comida precisam comprometer boa parte do salário comendo na rua – Fotos: Janailton Falcão

Vista como uma atividade prazerosa por alguns, comer fora de casa nem sempre é uma prática agradável, principalmente para o bolso do trabalhador que possui dificuldades para se alimentar com a comida caseira. Em tempos de crise, o jeito é usar a criatividade para economizar, seja com o preparo da comida em casa ou com a compra antecipada de refeições.

O economista Alex Del Giglio avalia que os gastos com a alimentação na rua tiveram aumento acima da inflação nos últimos anos, de 9,1%, em 2016, conforme a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio). O especialista conta que esse aumento impacta na renda do trabalhador porque a renda subiu numa proporção menor do que o preço dos alimentos fora de casa. “Por este motivo, os trabalhadores preferem levar comida de casa para economizar mais”, revela.

A presidente da Associação de Bares e Restaurantes no Amazonas (Abrasel-AM), Lilian Guedes, informa que uma refeição, por exemplo, o almoço, custa em Manaus, incluindo a bebida, em média, R$ 28. Porém, esse valor pode chegar até R$ 35, dependendo do prato, além da localidade. “No Vieiralves (Zona Centro-Sul), por exemplo, o prato executivo mais a bebida tem um preço médio de R$ 40”, conta a empresária.

No Centro, os restaurantes têm liberdade para estipular o preço da comida, que varia de R$ 19 a R$ 36 o quilo do prato feito, embora existam locais que cobram só R$ 10. A presidente da Abrasel-AM esclarece que embutido nesse valor, o cliente já paga custos de ambiente e serviço. “O empresário paga aluguel, funcionários, banheiros, copos, e tudo entra no custo”, aponta.

Preço das refeições variam conforme o tipo do prato, a localidade e até mesmo o ambiente

“Marmita”

Quando se fala na popular “quentinha” ou “marmita”, Lilian disse que, em Manaus, preço varia entre R$ 6 e R$ 10 por cada uma. Segundo ela, grande parte das pessoas possui baixa renda. “Mais da metade da população que se alimenta na rua, consome comida a quilo, porque é possível ajustar o tamanho do prato ao que cabe no seu bolso”, destaca.

A vendedora Elizabeth Durant, 58, que atua em uma loja no Centro, conta que para almoçar, gasta por dia o valor de R$ 12 em média, de segunda a sábado, uma soma que em um mês totaliza R$ 288.

Elizabeth afirma que não tem como preparar e levar a comida de casa, porque trabalha em Manaus, mas mora em Manacapuru (a 86 quilômetros da capital amazonense). Ela sai da loja às 18h, chega em casa às 21h e não tem mais condições de fazer comida porque tem que acordar às 5h para chegar a tempo no emprego em Manaus.

“Eu não tenho condições de fazer comida em casa, então é viável pagar para comer na rua”, conta a trabalhadora.

Vale garante economia

Enquanto alguns funcionários precisam tirar do próprio bolso para comer, outros recebem o valor da refeição da empresa onde trabalham. A comerciária Janete Rodrigues, 41, economiza R$ 10 todos os dias, porque a empresa dispõe desse valor para os funcionários almoçarem.

Segundo Janete, se fosse trazer a comida de casa todos os dias, ela gastaria R$ 60, valor que, nessa época de crise, considera alto para quem ganha apenas um salário.

Ela conta que compra, geralmente, um prato com uma porção de arroz, feijão com frango ou ovo frito, podendo variar todos os dias, sempre no valor de R$ 10. Porém, às vezes, ela paga menos, o que garante uma economia mensal, de quase R$ 150 com o almoço. “Se eu pegar todo o valor de R$ 240, o dinheiro (R$ 90) que sobra já serve para pagar uma conta de luz ou de água, ou comprar algo necessário para minha casa, pois é meu lucro”, diz.

O especialista conta que o aumento dos alimentos impacta na renda do trabalhador

A vendedora conta que já pratica essa economia há mais de dois anos, quando percebeu que estava gastando muito dinheiro ao se alimentar fora de casa. “Todo final de semana, eu acumulo um dinheiro guardado que não gastei com refeição na rua”, revela a funcionária.

Concorrência é acirrada

O dono do restaurante Delícias Grill, Deldimo Bahia, trabalha com comida a quilo e, apesar da concorrência forte com as refeições de R$ 10, ele consegue manter uma boa clientela. “A nossa clientela mais fiel é a de funcionários de cartórios, bancos e do comércio em geral”, conta.

Segundo ele, são poucos os que comem peixes, mas devido à variedade, o prato vendido no Delícias Grill custa, em média, entre R$ 12 e R$ 15.

“A gente tem um diferencial que é a oferta grátis de água”, disse. O preço do quilo no estabelecimento é R$ 36,99.

Pensando na economia, alguns trabalhadores da capital amazonense, que não podem trazer comida de casa, acabaram por migrar do tipo de alimentação a quilo, que sai mais cara, para a alimentação do prato feito ou da “quentinha”. Deldimo, estipula que pelo menos 15% da sua clientela já fez essa mudança para a alimentação mais barata.

“Essa mudança não foi maior porque a maioria da nossa clientela é de funcionários de cargos elevados, que são mais criteriosos e estão dispostos a pagar pela refeição. Alimentação é uma atividade séria”, conclui.

Joandres Xavier

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